“Motivada pelas experiências na Nasa, estudante se prepara agora para as provas de seleção em Engenharia Aeroespacial do ITA”

18.12.2017

Mylena Peixoto nasceu em Campos dos Goytacazes, no interior do Rio de Janeiro, tem 18 anos e visitou a sede da Nasa, no Texas (EUA), pela segunda vez em setembro. Na primeira experiência, em 2016, Mylena foi para os Estados Unidos depois de descobrir cinco asteroides ao participar de um programa internacional que mobilizou as escolas públicas da sua cidade. Recém-formada no ensino médio, a jovem já traçou o sonho que pretende realizar nos próximos anos: ser astronauta.

Junto com o pai, Mylena precisou movimentar a cidade para conseguir apoio financeiro e realizar as duas viagens. Mas ao conhecer a Nasa e ter contato com cientistas reconhecidos no mundo inteiro, ela sente que o esforço valeu à pena e resultou na oportunidade única de aprofundar o conhecimento que já tinha sobre astronomia e confirmar que estava pronta para seguir a carreira científica. Como um primeiro passo, a estudante se prepara agora para as provas do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). “Quero cursar Engenharia Aeroespacial e estou estudando bastante para isso. Tenho planos de também tentar uma bolsa em uma universidade americana”, contou.
O que motivou o seu interesse por Astronomia?

Mylena Peixoto: Eu sempre gostei muito de estudar e Ciência era uma das minhas paixões desde cedo – mas era uma paixão pura e sem conhecimento técnico. O interesse por astronomia, no entanto, veio depois que participei do projeto em que ajudei a descobrir cinco asteroides, ainda com 15 anos.. Com a astronomia, entendi que podemos descobrir o que somos, de onde viemos e encontrar soluções de problemas da sociedade por meio da exploração espacial. Eu sempre tive certeza que os estudos eram o caminho para realizar os meus sonhos.

Como foi a experiência de descobrir os asteroides?

Eu cursava o ensino médio integrado a um curso de técnico de enfermagem, porque eu queria fazer medicina, mas o contato com a astronomia mudou tudo. Como eu vinha me destacando no colégio, um professor de física começou a observar meu desempenho e interesse pela Ciência, então me selecionou para participar do programa internacional “Caça aos Asteroides”. Durante um mês, um grupo de cinco pessoas analisou imagens do espaço, por meio de um software chamado astrometrica. A gente recebia um pacote de imagens semanais e nesse período descobrimos esses cinco asteroides.

A descoberta dos asteroides possibilitou a conquista de conhecer a Nasa. O que isso representou para você?

A primeira vez foi há dois anos e muita coisa aconteceu desde então. Na prática, foi como se eu tivesse agregado cerca de cinco anos de experiência acadêmica na minha vida. Quando estive lá, significou a certeza de que era aquilo que eu queria. Foi quando vi a minha paixão pela Ciência concretizada.

O que ocorreu na primeira e na segunda viagem para os Estados Unidos?

Na primeira, fui selecionada para uma visita técnica à Nasa de Houston, no Texas. Conheci também o Museu Aeroespacial de Washington e fiz um curso de análise de sinais radiotelescópios em Virgínia. No Observatório Internacional, fomos o primeiro grupo de brasileiros a fazer o curso e eu era a mais jovem de todas as pessoas que já passaram por lá. Além de tudo isso, assim que chegamos a Houston fomos convidados para um jantar na casa do diretor da Nasa na época, o Charles Bolden. Na segunda vez, agora em setembro, fui a única brasileira que conquistou uma bolsa no Kennedy Space Center, na Flórida. Lá, fiz um curso que envolveu introdução à engenharia, robótica, programação e desenvolvimento científico. Foi uma experiência muito marcante!

Você é jovem e ainda está no início da carreira, mas já teve grandes experiências que muitos cientistas só alcançam com mais tempo de estudo. Como você vê isso?

Eu não diria que sou uma pessoa sortuda, porque eu batalhei muito para chegar aqui e com a ajuda de muitas pessoas. Mas eu me sinto privilegiada por ter tido a oportunidade de realizar um sonho tão grande. Hoje, meus sonhos ganharam o mundo!

Você enxerga desafios no seu futuro como cientista?

Infelizmente, a carreira científica no Brasil é muito difícil. Eu acredito na educação e estou disposta a lutar por incentivos à ciência no Brasil, pois só ela é capaz de transformar vidas. Meu sonho é ser astronauta, mas mesmo que eu passe um tempo lá fora, quero representar e contribuir para a ciência do meu país. Nas duas vezes que voltei ao Brasil, senti mais vontade de me empenhar no que acredito para que o meu conhecimento também agregue valor para outras pessoas. Espero, sobretudo, que eu inspire jovens no futuro com o meu trabalho e também possa ajudá-los como fui ajudada.

O programa L’Oréal-UNESCO-ABC Para Mulheres na Ciência já premiou mais de 80 cientistas brasileiras com bolsas de pesquisa. Como você vê a presença da mulher nas carreiras científicas?

Eu acompanho o programa e acho incrível. É uma iniciativa que deveria existir muito mais, porque além de incentivar pesquisadores, incentiva mulheres na carreira. Eu me reconheço nele porque estou no início da minha carreira e me vejo representada nas histórias das vencedoras que se esforçaram tanto para alcançar reconhecimento. Eu sou muito nova e já senti preconceito pelas minhas escolhas, muita gente se espanta quando digo que quero seguir uma carreira na aeronáutica e pergunta o que a minha família acha. A sociedade sempre espera que a mulher siga as profissões tradicionais e sonhos pequenos – eu admiro quem segue essa escolha, mas não é algo que quero pra minha vida. Eu decidi que quero ser a primeira astronauta brasileira e mulher a chegar no espaço.