“Natália Oliveira venceu concurso de renomada revista científica com videoclipe sobre biossensor capaz de identificar DNA em cenas de crimes”

13.11.2017

Imagine um projeto que junte dança artística e Ciência Forense. Foi com o desafio de reunir os dois temas em um videoclipe que a pesquisadora Natália Oliveira, de 28 anos, venceu o concurso “Dance Your Ph.D”, da renomada revista científica Science, pelo voto popular. O concurso “Dance seu Ph.D” foi criado pela Science e a Associação Americana para o Avanço da Ciência para desafiar pesquisadores a explicarem seus doutorados por meio da dança.

De jaleco, óculos escuros e acompanhada de dançarinos em estilo vogue em um laboratório e nas ruas de Recife, a cientista da Universidade Federal de Pernambuco expressou artisticamente no clipe como desenvolveu um sistema de biossensores capaz de identificar materiais genéticos deixados em cenas de crimes, mesmo quando eliminados por álcool ou água sanitária, por exemplo.

Ao receber 78% dos votos do público, ela acredita que o concurso é uma forma de popularizar o conhecimento: “O videoclipe permitiu engajar a população e essa foi maior vitória que o projeto me proporcionou. Conseguimos fazer com que a sociedade entendesse a ciência”.

Bióloga e doutora pela UFPE, Natália espera que o reconhecimento do videoclipe “Pop, Dip and Spin: The Legendary Biosensor For Forensic Sciences” também abra portas para disseminar a sua pesquisa. Confira a entrevista exclusiva que fizemos com ela para o nosso site.

A sua tese de doutorado trata do desenvolvimento de biossensores para identificar materiais genéticos com mais precisão. Como funciona?

Eu desenvolvi um aparelho biossensor no meu mestrado com uma aplicação para ciências forenses. Ele funciona para detectar amostras biológicas em cenas de crime, como sangue, sêmen ou saliva. E mesmo quando esses materiais são lavados por criminosos, o sistema ainda consegue detectar – o que é uma problemática atual com alguns testes que normalmente são utilizados na rotina de investigações criminais. Então, além de conseguir encontrar esses vestígios, ele também pode fazer uma correlação para saber qual o tipo de amostra biológica está ali.

Como foi a trajetória da sua pesquisa até agora?

Desde a graduação eu já tinha interesse de trabalhar com estudos de genética forense inspirada pela minha orientadora, uma perita criminal. Quando migrei para o mestrado, surgiu a vontade de juntar o meu projeto inicial com a parte que aprendi no mestrado. No doutorado, comecei a desenvolver e pesquisar tecnologias que pudessem auxiliar as ciências forenses na detecção mais rápida e mais precisa de moléculas em uma investigação criminal.

Com a pesquisa já conseguimos publicação de artigos científicos, patentes e até uma parceria com a Universidade de Cambridge durante o doutorado sanduíche. Recentemente, conseguimos uma parceria com a área da Polícia Federal para trabalharmos em outras demandas do próprio órgão e na criação de outros tipos de sensores.

O que representou para você a conquista do concurso da revista Science? Esperava que você fosse vencer?

Foi uma surpresa! O reconhecimento por uma das melhores revistas científicas do mundo é uma maravilha, porque nós brasileiros sabemos como está a situação atual, das dificuldades que estamos passando para realizar ciência. Quando uma revista de renome internacional reconhece que um trabalho brasileiro tem mérito – tanto do ponto de vista científico quanto artístico -, é uma grande vitória. Além disso, o prêmio promoveu engajamento da própria população com o vídeo. As pessoas compraram a nossa ideia e entenderam o que quisemos explicar. Impactar a população assim é a maior vitória que o projeto proporciona. Ou seja, fazer com que a sociedade entenda a ciência.

Qual foi a inspiração para participar do concurso? E por que você decidiu representar o estilo vogue no clipe?

Eu nunca tinha participado do concurso, mas eu sempre gostei muito de ciência e arte. A ideia do concurso é muito boa, porque treina os cientistas a pensarem fora da caixa. Ali, conseguimos promover novas linguagens e tornar aquilo acessível para o público. Como a dança já é um meio mais próximo das pessoas, conseguimos aproximar a ciência desse público. A arte contribui para a criatividade do cientista e a ciência contribui para o desenvolvimento de novas metodologias artísticas.

O vogue traz na sua história a representatividade da comunidade LGBT. No clipe, juntamos esses elementos da cultura e conseguimos não apenas falar de ciência, mas também das minorias e passar um discurso político.

Como é ser mulher e cientista no Brasil?

Ser mulher e cientista é ser inovadora, ser resistente. A depender do ambiente em que estamos praticando ciência, haverá muitas dificuldades para exercer esse trabalho. Eu fui agraciada de não conviver com pessoas que me colocavam para baixo, mas eu já vi muitos casos de boicote por ser mulher e aquela ideia de que “mulher não aguenta pressão”. Minha trajetória mostrou justamente o contrário. Eu consegui conquistar tudo o que conquistei. Nós mulheres contribuímos muito com a Ciência brasileira, tenho certeza. Hoje, felizmente há maior equilíbrio em relação a presença dessas mulheres na academia e na liderança de pesquisas.

O que você espera da divulgação que a sua tese teve nas últimas semanas?

Eu espero que as pessoas entendam mais o papel da ciência na sociedade, que não é um bicho de sete cabeças. Que a minha tese, e até o próprio vídeo, sirva como inspiração para que outras pessoas se engajem nessa ideia e que a gente consiga levar para o mundo que sabemos fazer um trabalho bom e que o Brasil tem qualidade para mostrar ao mundo. A minha universidade não faz parte do ranking das 100 melhores universidades do mundo, mas ela foi a única finalista da América Latina no concurso da revista Science, então isso representa muita coisa.

Assista: