“Em 2017, houve cortes de 44% do orçamento previsto para pesquisas científicas ligadas ao Ministério da Ciência”

17.12.2017

Em um cenário de cortes de investimentos públicos nas áreas de Ciência e Tecnologia, iniciativas de incentivo aos cientistas brasileiros representam a oportunidade de avançar pesquisas importantes para o desenvolvimento da sociedade. De acordo com uma reportagem do jornal El País, só no último ano houve um corte de 44% do orçamento previsto para projetos científicos ligados ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). Mais que reconhecer a importância desses projetos, o programa L’Oréal-UNESCO-ABC Para Mulheres na Ciência se compromete com o futuro científico. Em 12 edições o prêmio distribuiu, até hoje, o equivalente a 3,5 milhões de reais entre 82 mulheres cientistas promissoras, que receberam impulso extra para dar prosseguimento em seus estudos e incrementar o desenvolvimento da ciência no País.

Na edição do programa em 2017, sete cientistas que dedicam conhecimento a diferentes temas receberam uma bolsa-auxílio de R$50 mil para prosseguirem com o desenvolvimento de suas pesquisas. Para a matemática Diana Sasaki, pesquisadora da UERJ, o reconhecimento do prêmio é um respiro em meio à crise econômica que afeta as universidades do Rio de Janeiro: O prêmio influenciará positivamente as minhas próximas candidaturas e estará para sempre em destaque no meu currículo. A valorização da minha pesquisa me animou bastante a continuar com o meu projeto”.

Visibilidade e reconhecimento: como o prêmio impacta o desenvolvimento das pesquisas?

Diana Sasaki, Fernanda Tonelli, Gabriela Nestal, Jenaina Soares, Marília Nunes, Pâmela Mello-Carpes e Rafaela Ferreira passaram por diversas mudanças desde que foram anunciadas como as vencedoras da edição de 2017. Na rotina, elas continuam trabalhando muito e se dedicando às pesquisas ao mesmo tempo em que vivem suas respectivas vidas fora do laboratório – como jovens, mães, professoras, esposas e filhas. A visibilidade que conquistaram junto com o prêmio, no entanto, representa muito. Hoje, elas estão no radar de entrevistas, participação em eventos e debates em suas áreas de estudo – além disso, uma infinidade de possibilidades se abrem para o futuro.

“Tem sido uma ótima experiência. Desde que recebi o prêmio, houve uma repercussão enorme, tanto no meio acadêmico quanto fora. Sinto que o prêmio gerou muito reconhecimento e respeito em relação ao meu trabalho”, compartilhou Rafaela Ferreira. Para Fernanda Tonelli, o principal ganho é como o prêmio abre caminhos para o desenvolvimento da Ciência no Brasil: “Representa, sobretudo, o reconhecimento de meu trabalho e do trabalho de toda a equipe com que tive a honra de trabalhar. É também um importante retorno de que a pesquisa que desenvolvemos está alinhada com necessidades de diferentes áreas da sociedade”.

Cientistas vencedoras compartilham as projeções para 2018

Com a bolsa-auxílio concedida pelo programa, as sete cientistas buscam formas de aplicar o valor em questões essenciais para o desenvolvimento das pesquisas. A física Jenaína Soares, por exemplo, usará a bolsa concedida pelo prêmio para investir em reagentes e equipamentos que auxiliem o processo de síntese de novos nanomateriais, seu objeto de pesquisa. A cientista estuda a estrutura de novos nanomateriais com perspectivas de aplicações em diferentes indústrias, em especial a eletrônica. Além disso, ela busca desenvolver equipamentos para produzir esses nanomateriais, formados por uma ou poucas camadas atômicas. Por ser um campo de pesquisa que ainda ganha espaço no Brasil, ela espera conseguir enviar alunos para laboratórios e eventos com o objetivo de divulgar os resultados já alcançados.

“Tenho trabalhado de forma muito consistente para treinar nossos alunos, pois é necessário ter ‘massa crítica’ de pessoas qualificadas para conduzir todos os pontos do projeto. A parte de síntese, sem dúvidas, estava necessitando de um apoio financeiro para reagentes e alguns equipamentos, sendo que agora poderemos dar os próximos passos neste sentido”, explicou.

Ciência que inspira o mundo

Na área da biologia, Marília Nunes também aplicará o valor do prêmio para adquirir reagentes que auxiliem nas análises dos materiais genéticos de peixes utilizados em sua pesquisa. Além disso, a prioridade agora é investir em viagens para coletar amostras em colônias de pescadores da região Norte – local onde desenvolve o seu estudo de conscientização da população para preservar o Pirarucu, um dos maiores peixes da Amazônia.

Recentemente, o grupo de pesquisa de Marília iniciou uma parceria com o Laboratório de Genética Aplicada da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), de Belém, para desenvolver novos marcadores moleculares com o objetivo de avaliar a questão do parentesco entre os pirarucus. “Junto a isso, estamos fazendo os primeiros contatos com os pescadores para adquirir confiança e, posteriormente, coletar as amostras para iniciar as extrações de DNA”, ressaltou.

A partir disso, Marília busca em 2018 conseguir diagnosticar a situação exata da diversidade genética das populações da espécie na região do Xingu e Araguaia e desenvolver alternativas que ajudem na preservação dos animais. Mais do que isso, a pesquisadora acredita no poder que agora tem de inspirar outras jovens a não desistirem da carreira científica: “Espero poder incentivar outras cientistas a acreditarem nos seus sonhos e no seu potencial”, finalizou.