Notícia

Vivian Costa, ganhadora do Para Mulheres na Ciência, investiga soluções para infecções virais como dengue e Covid-19

28.08.2020

Vencedora na categoria Ciências da Vida, a mineira deixou a fisioterapia para se tornar pesquisadora na UFMG

 

Por que algumas pessoas com Covid-19, zika e dengue desenvolvem formas graves da doença, que podem levar à morte, enquanto outras têm sintomas mais leves? A pesquisa da microbiologista Vivian Costa, do Departamento de Morfologia do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), busca respostas que podem salvar a vida de milhares de pacientes nos próximos anos. A mineira de 35 anos é uma das vencedoras do prêmio L’Oréal-Unesco-ABC Para Mulheres na Ciência 2020 na categoria Ciências da Vida. Que tal saber mais sobre a trajetória da cientista? Continue lendo a matéria e aproveite!

 

Graduada em fisioterapia, Vivian decidiu se tornar cientista e investigar soluções para identificação e tratamento da dengue

 

Graduada em fisioterapia pelo Centro Universitário de Belo Horizonte, Vivian descobriu a paixão pela ciência no terceiro período da faculdade: “Comecei a questionar por que utilizávamos sempre o mesmo tipo de tratamento para o mesmo tipo de problema, era tudo muito quadrado. Ali, percebi que aquela vida [de fisioterapeuta] não era para mim”. Vivian, então, buscou uma bolsa de iniciação científica no Instituto de Ciências Biológicas da UFMG, de onde nunca mais saiu: cursou mestrado, doutorado, pós-doutorado e, finalmente, ingressou como pesquisadora. “Trabalho com o mesmo grupo há 15 anos. Quando entrei no departamento como professora, já tinha toda a infraestrutura necessária”, ressalta. 

 

 

Atualmente, ela investiga soluções para identificar e tratar formas graves da dengue. Você sabia que o número de pessoas afetadas pela dengue todo ano é tão grande que poderia lotar o estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, quase cinco mil vezes? Estimativas apontam para cerca de 400 milhões de infecções anuais no mundo. No Brasil, apesar das inúmeras campanhas para prevenção da doença por meio do combate ao mosquito Aedes Aegypti – até agora, única forma de evitar o contágio, as epidemias têm aumentado nos últimos anos.

 

Como saber se alguém terá formas graves de dengue? Foco da cientista é investigar o processo de inflamação

 

Para Vivian, uma das chaves do desenvolvimento de medicamentos específicos contra a dengue, por enquanto inexistentes, está em conhecer melhor o processo inflamatório gerado pela infecção. Por isso, a pesquisadora investiga moléculas que podem estar relacionadas ao controle da reação inflamatória exagerada do organismo ao vírus em determinados indivíduos. “A inflamação é um processo natural e essencial do corpo que faz parte das nossas defesas contra lesões. No caso da dengue, sabemos que respostas inflamatórias exageradas levam a danos nos tecidos e geram um agravamento da doença, mas precisamos compreender melhor esse processo para poder controlá-lo”, explica. 

 

Duas estratégias complementares são combinadas pela pesquisadora para identificar moléculas que funcionam como biomarcadores da dengue grave: na bancada do laboratório, ela analisa amostras de pacientes com diferentes formas de infecções de dengue (indivíduos assintomáticos, com dengue leve e dengue grave) em busca de moléculas que possam estar associadas à gravidade dos casos. Paralelamente, realiza testes em modelos animais, incluindo um modelo com células humanas implantadas, para compreender melhor a interação entre essas moléculas e a doença, além de buscar formas para inibir a ação daquelas que impulsionem o agravamento do problema.

 

Metodologia usada pela pesquisadora também pode ser aplicada no combate à Covid-19

 

A tecnologia para a realização desses testes veio de Singapura, país tropical com altas taxas de dengue, onde Vivian morou em três ocasiões diferentes durante e após o doutorado em microbiologia. “No começo, eu não queria ir, eram 32 horas de distância de Belo Horizonte, mas foi uma experiência fantástica. Fiz parcerias importantes e trouxe ferramentas novas para a minha pesquisa, que não existiam no Brasil”, avalia. 

 

Além de estudar dengue e outros vírus similares, como zika, chikungunya e mayaro, Vivian e sua equipe se preparam para aplicar a metodologia de identificação de biomarcadores em processos inflamatórios no combate à Covid-19. “Em casos como esse, não adianta enfrentar só o vírus ou só a inflamação. É preciso desenvolver procedimentos que atuem nas duas frentes, reduzindo a carga viral e a inflamação excessiva causada pelo coronavírus. Estamos muito comprometidos em fazer a nossa parte, inclusive tenho alunos trabalhando voluntariamente nos diagnósticos de Covid-19”, diz.

 

Cientista e mãe, Vivian conta com as madrugadas para dar conta das atividades durante a pandemia 

 

 

E por falar em coronavírus, os desafios impostos pela pandemia têm sido dobrados para a pesquisadora, que teve o primeiro filho, Theo, no ano passado e voltou da licença-maternidade em março, pouco antes do fechamento das universidades no Brasil. “Mesmo com um bebê engatinhando em casa, não parei. Conto com a ajuda da minha rede de apoio para continuar realizando a pesquisa e acordo com certa frequência às 3h da manhã para dar conta de todas as atividades”, revela. 

 

E todo o esforço tem valido a pena, especialmente agora, após a conquista do prêmio Para Mulheres na Ciência que buscava conseguir desde 2016. “O prêmio mostra que o meu trabalho está sendo reconhecido e avaliado por pesquisadores de fora do meu grupo, que eu posso fazer outras coisas. Acho que vai mudar o jeito de as pessoas me olharem, além de abrir muitas portas”, vibra.