Notícia

Vencedora de 2007 mostra como o prêmio transformou sua carreira e fala sobre projeto que incentiva meninas nas ciências exatas

08.02.2019

Tatiana Rappoport é pesquisadora do Instituto de Física da UFRJ e criou o Tem Menina no Circuito com outras duas cientistas

Em uma década, muita coisa pode acontecer no universo da Ciência. Avanços na genética, novas tecnologias, planetas encontrados no sistema solar, tratamentos para doenças raras, entre outras descobertas. Quando se fala de mulheres cientistas, a situação também é bem diferente se comparada com 10 anos atrás. É o que observa Tatiana Rappoport, uma das vencedoras do L’Oréal-UNESCO-ABC Para Mulheres na Ciência em 2007 – a segunda edição do prêmio no Brasil. Para ela, o programa tem um papel muito importante de incentivar jovens pesquisadoras a acreditarem no próprio potencial. Atualmente, mais de 80 mulheres cientistas já foram reconhecidas no país pelo prêmio.

Hoje professora e pesquisadora do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Tatiana sabe que também pode influenciar meninas a seguirem uma carreira na Ciência. Em 2013, ela se uniu às pesquisadoras Elis Sinnecker e Thereza Paiva e criaram o Tem Menina no Circuito, uma iniciativa para conversar e mostrar as possibilidades das ciências exatas para as estudantes do Ensino Médio. “A ideia é trazer elementos para atrair a atenção delas – como artesanato, massinha e tecidos – combinado a materiais condutores para fazer eletrônica”, explica.

Confira a entrevista com Tatiana!

Para você, o que significou receber o prêmio em 2007?

Eu tinha acabado de passar no concurso da UFRJ e o prêmio me permitiu maior reconhecimento. Ele ajudou a estabelecer minha carreira como pesquisadora de Física e aumentou minha autoestima – abre um espaço para que você seja respeitada e cresça dentro da carreira. O prêmio ainda estava no início naquela época e, como já é algo esperado, hoje tem uma repercussão ainda maior na ciência brasileira. A experiência foi ótima e ainda tenho contato com as mulheres que ganharam o prêmio comigo. Se pensarmos historicamente, o prêmio foi um dos primeiros a falar desse tema e isso obriga as pessoas a refletirem. Dez anos atrás, se falava muito pouco sobre a quantidade de mulheres nas ciências exatas.

O que mudou na sua carreira de lá pra cá?

Não trabalho mais com o tema do projeto submetido para o programa, mas com as propriedades quânticas de materiais bidimensionais. Daqui alguns meses vamos lançar a primeira versão oficial de um software de código aberto para transporte quântico em Física. Em 2015, eu ganhei uma bolsa da Newton Advanced Fellowship, da Royal Academy da Inglaterra, principal agência de fomento científico do país. Fiquei alguns anos trabalhando em colaboração com uma universidade inglesa. Hoje, minha carreira como Física teórica está bem estabelecida.

O que é o projeto Tem Menina no Circuito?

O Tem Menina no Circuito começou no final de 2013, junto com mais duas colegas minhas da Física na UFRJ, a partir de um edital do CNPq para um projeto de extensão de incentivo à participação de meninas nas ciências exatas que nos inscrevemos. Lemos vários artigos mostrando que as meninas são socialmente criadas para se interessarem pouco por eletrônica mais convencional e montar equipamentos. Hoje, trabalhamos com duas escolas na Baixada Fluminense. As meninas se reúnem conosco fora do horário de aula para as atividades de eletrônica. Também levamos elas para visitas na universidade e museus de ciência, tudo para mostrar como a área pode ser divertida e interessante.

No final das contas, não é apenas um incentivo para seguir as ciências exatas, mas para cursar uma universidade de forma geral. Mostramos que prestar vestibular e entrar na vida acadêmica  não é nenhum bicho de sete cabeças. Isso tem funcionado – algumas egressas do nosso projeto já estão na faculdade!

Por que esse incentivo logo cedo é tão importante?

Existem vários estudos que mostram que durante a primeira infância, meninos e meninas se interessam igualmente por ciências exatas. Dados do mundo todo mostram que as meninas começam a se desinteressar pelo tema aos poucos, até que no ensino médio há uma diferença muito grande nesse interesse – inclusive na quantidade de homens e mulheres que vão buscar cursos na área. Quanto mais cedo ocorrer uma interferência, melhor. Depois que começamos o Tem Menina no Circuito, criamos também um projeto chamado Tem Criança no Circuito para crianças a partir de cinco anos. Várias alunas do outro projeto são monitoras das atividades.

Qual o papel de programas como o Para Mulheres na Ciência para estimular essa participação feminina?

Acredito que o prêmio foi um dos responsáveis por mudar o panorama das mulheres cientistas no Brasil. Um ponto interessante é a visibilidade: no imaginário das pessoas, a figura do cientista é um homem – branco, talvez mais velho. A divulgação do Para Mulheres na Ciência mostra cientistas com outra cara: mulheres, jovens e diversas. Isso é muito importante para a sociedade como um todo, porque estimula meninas com interesses diferentes a se identificar com aquilo. Quando ela for fazer o vestibular, por exemplo, pode cogitar uma carreira em uma área mais difícil porque tem imagens de mulheres cientistas em seu imaginário.