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Science Talk: em cerimônia do prêmio Para Mulheres na Ciência, três cientistas respondem perguntas sobre profissão, gênero e os desafios da carreira científica

22.10.2019

A conversa foi mediada pela jornalista Renata Capucci, com a participação de mulheres de diferentes áreas da Ciência

 

Como o prêmio Para Mulheres na Ciência mudou sua vida? Como é ser uma mulher negra na ciência? Quais são as principais dicas para jovens que pretendem seguir carreira na área? Para responder essas perguntas, reunimos três renomadas cientistas na cerimônia de premiação do Para Mulheres na Ciência 2019, um programa da L’Oréal Brasil, em parceria com a UNESCO e Academia Brasileira de Ciências (ABC). 

Denise Carvalho, reitora da UFRJ, Marcia Barbosa, professora da UFRGS, e Zélia Ludwig, professora da UFJF, participaram do Science Talk, mediado pela jornalista Renata Capucci e transmitido ao vivo pela página oficial programa no Facebook. Confira os destaques da conversa!

 

“60% das meninas recebem bolsa de incentivo do CNPQ mas há apenas 24% de pesquisadoras nos cargos mais altos”, afirma Denise Carvalho, primeira reitora mulher da UFRJ

Denise Carvalho é a primeira mulher a ocupar o cargo de reitora em uma das universidades mais importantes do país. Mas essa mudança está apenas começando: de acordo com a cientista, 24 universidades federais no Brasil jamais tiveram reitoras do sexo feminino e há muito ainda a avançar. 

“Os desafios são enormes, mas o gargalo começa desde cedo. Há poucas mulheres que atingem o cargo de reitora, mas também poucas se candidatam. O machismo da sociedade faz com que duvidemos da nossa capacidade”. 

Denise Carvalho contou ainda que também teve essa dúvida, mas que é necessário quebrar esse padrão: “60% das meninas recebem bolsa de incentivo do CNPQ. Então não há motivo de termos apenas 24% de pesquisadoras nos cargos mais altos”. 

 

Cientistas vencedoras desta edição serão referência para mulheres estudantes

Quem também participou do Science Talk foi a física Marcia Barbosa, professora da UFRGS, que ganhou o prêmio internacional For Women in Science a, na França, em 2013. Sua pesquisa vencedora analisa o comportamento da água e identifica anomalias no líquido em diferentes escalas. 

A cientista falou sobre os impactos da premiação no desenvolvimento do seu trabalho e a importância de trazer mais diversidade para as equipes de trabalho: “Estudos mostram que as mulheres perdem a ambição na área acadêmica – e não é por causa dos filhos, não é por causa do marido. Elas perdem a ambição por causa de comentários dos próprios colegas de trabalho. Por isso, e deixo aqui uma reflexão, é importante decidir quem contratar, quem indicar, quem colocar em um comitê. Não tem nenhuma mulher capaz de exercer esse papel?”. 

Para Márcia, as cientistas vencedoras desta edição, assim como aconteceu com ela, serão referência para outras estudantes. “A vida das cientistas que estão aqui mudou, mas o que mudou mais ainda foi a vida de cada estudante da universidade em que vocês estiveram.  Usem esse incentivo para levar as outras mulheres, vocês não estão mais sozinhas”. 

 

Percentual de mulheres cientistas é pequeno e de mulheres negras é ainda menor, aponta Zélia Ludwig, pesquisadora e professora da UFJF 

Zélia Ludwig, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Juiz de Fora, tem o hábito de sempre observar quantas mulheres negras estão presentes no mesmo local que ela. Isso porque, de acordo com a pesquisadora, conforme foi crescendo na carreira, esse número tende a diminuir – e muitas vezes é inexistente. “Se esse percentual já é pequeno entre as mulheres no geral, imagina entre as mulheres negras? Pensei como poderia mudar essa realidade através da ciência”. 

Zélia reforçou então a necessidade de se unir a outras mulheres e ser um modelo de representatividade. “O caminho é complicado, é longo, mas, se eu consegui vencer, todas elas podem fazer isso. Mas como eu consegui? Porque eu tive oportunidade. Então é preciso que a gente dê oportunidade para que outras também consigam”. E finalizou com um recado para as ganhadoras: “Vocês podem fazer a diferença, mas cabe a vocês escolher o tipo de diferença que querem fazer”.