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Quebra-cabeças matemático: entenda a pesquisa de María Amelia, professora da UFF e vencedora do Para Mulheres na Ciência

25.09.2020

Estruturas geométricas abstratas e complexas são o tema do estudo da colombiana, vencedora na categoria Ciências Matemáticas

 

O que um matemático faz? Colocar isso em palavras, segundo a matemática colombiana María Amelia Salazar, da Universidade Federal Fluminense (UFF), não é tarefa fácil. Para explicar as estruturas geométricas complexas e altamente abstratas que estuda em sua pesquisa na área de geometria diferencial, ela usa o exemplo de um quebra-cabeças. “É como se eu estivesse tentando criar as peças e também colocá-las nos lugares certos”, explica a vencedora do Prêmio L’Oréal-Unesco-ABC Para Mulheres na Ciência 2020 na categoria Ciências Matemáticas. Conheça mais sobre sua trajetória, estudo e qual é a sua visão na luta para aumentar a participação das mulheres na matemática!

 

Estudo de María Amelia busca possibilitar novas perspectivas e áreas de estudo na matemática

 

Aos 36 anos, María Amelia se dedica à matemática há quase duas décadas. Seu objeto de pesquisa remonta ao legado do matemático norueguês Sophus Lie, que, no século 19, foi o principal responsável pela criação da teoria da simetria contínua e sua aplicação ao estudo da geometria e das equações diferenciais. “É uma história bonita, porque faz a ponte entre duas áreas da matemática que, em princípio, não tinham a ver uma com a outra”, admira María Amelia. A professora da UFF está particularmente interessada em dois aspectos da teoria de Lie, os grupoides e algebroides.

 

“Os grupoides de Lie são uma linguagem unificadora, que permite codificar várias estruturas diferentes. Eles permitem estudar os espaços e suas simetrias ao mesmo tempo”, explica a pesquisadora. “Um exemplo simples disso seria estudar uma esfera e sua rotação – mas é claro que há objetos muito mais complexos que são difíceis de explicar”. Já os algebroides de Lie são uma versão linear dos grupoides. María Amelia compara a relação entre grupoides e algebroides de Lie à relação entre uma curva e sua reta tangente: “A curva, digamos, é mais complicada, e a reta tangente é mais simples. Mas, mesmo nesses objetos mais simples de estudar – os algebroides –, há muita informação dos objetos iniciais, os grupoides”. 

 

Trata-se de uma área da matemática relativamente nova, sobre a qual ainda não há muitos pesquisadores se debruçando. Por isso, o objetivo de María Amelia é resolver problemas fundamentais, que possibilitem abrir novas perspectivas e áreas de estudo. Sua empolgação com o projeto é palpável. Perguntada sobre as alegrias de atuar na matemática, ela retoma a ideia de beleza: “Na matemática, a beleza não passa pelo visual, porque o que você tem são coisas muito abstratas. Mas é uma coisa que você vai entendendo, mesmo sem definir. Quando um argumento é elegante, simples, quando não requer muita coisa… Na matemática, que é bem complicada, ter esses argumentos simples e elegantes é difícil. E é bonito”.

 

Cientista acredita que diferença entre a matemática das escolas e da universidade afastam jovens da carreira

 

 

Explicar as ciências matemáticas não é tão simples porque, segundo María Amelia, a matemática é, em si, uma linguagem, e traduzi-la fielmente a qualquer outra língua – inclusive o português – é praticamente impossível. “Como acontece em todas as línguas, o pensamento matemático é muito baseado na linguagem matemática. Então, é difícil compartilhar com alguém que não entenda essa linguagem. É como se eu falasse alemão e tentasse explicar o que é o alemão, para alguém que não entende alemão”.

 

Em sua visão, a distância entre o que se aprende em matemática nas escolas de ensino básico e a pesquisa que se faz nas universidades é muito grande. Por isso, é difícil até motivar os jovens a buscar a matemática como opção de carreira. Apesar de gostar de matemática e de suas professoras na escola, María Amelia acha que teve uma certa dose de sorte na escolha da profissão, já que não tinha uma noção muito clara do que significava ser pesquisadora na área. “O que eu tinha era uma visão um pouco idealista de que eu queria me dedicar a alguma coisa não por sua finalidade prática, mas pela satisfação pessoal”, lembra. “A matemática te desafia mentalmente”.

 

Trajetória acadêmica de María Amelia foi marcada por viagens e temporadas no exterior

 

E por falar em aprendizado, a trajetória acadêmica de María Amelia envolveu pular de um lugar para o outro ao longo de vários anos. Ela fez graduação Universidade Nacional da Colômbia, em Medellín, seguida de mestrado na Universidade dos Andes, em Bogotá. De lá, seguiu para a Holanda, onde fez outro mestrado e um doutorado na Universidade Utrecht. De 2013 a 2017, fez diferentes estágios de pós-doutorado no Centro de Pesquisa Matemática, em Barcelona (Espanha), no Instituto Max Planck de Matemática, em Bonn (Alemanha) e, finalmente, no IMPA, no Rio de Janeiro.

 

 

Das muitas viagens, ela leva lições para a vida pessoal e profissional. “Você aprende um monte de matemáticas diferentes, porque vê que cada país e cada universidade tem seus pontos fortes. É uma experiência enriquecedora para a carreira e também para a vida, porque você abre os olhos para outras formas de viver”, garante. No meio dessa jornada pelo mundo, a pesquisadora conheceu o marido, um matemático italiano, em um congresso. Ao optarem por viver no Rio, em 2014, os dois levaram em consideração não apenas a beleza da cidade, mas a presença de uma comunidade matemática forte e as oportunidades de trabalho como pesquisadores nas universidades locais. 

 

Dar visibilidade a mulheres é crucial para aumentar a participação feminina na matemática

 

Ao saber que havia sido laureada com o prêmio Para Mulheres na Ciência, María Amelia sentiu-se lisonjeada com o reconhecimento do trabalho que vem desenvolvendo: “Muitas vezes, na matemática, você fica muito centrado e as pessoas não percebem como é importante que você sinta que o seu trabalho é bom. Esse reconhecimento, que alguém lhe fale, ‘Olha, você está fazendo um bom trabalho’, isso faz uma diferença gigante!

 

Ela diz que fica especialmente feliz por ser um prêmio voltado às mulheres. Sendo a matemática uma das áreas da ciência com menor participação feminina, dar visibilidade a pesquisadoras e seus trabalhos é ainda mais importante. “Ter muitos homens e poucas mulheres é um problema que vai se auto alimentando. Os alunos claramente veem muito mais homens matemáticos, professores, palestrantes… Mesmo que você não seja consciente do assunto, isso vai lhe influenciando de certa maneira”, diz a vencedora. 

 

María Amelia argumenta que aumentar a participação das mulheres e de outros grupos minoritários na matemática traria benefícios para a própria ciência. Com isso em mente, vem organizando, desde o início de junho, o Cibercolóquio Latinoamericano de Matemáticas, uma série de eventos virtuais, em espanhol e português, para mostrar as diferentes facetas desta grande área de pesquisa aos graduados em início de carreira. Na seleção dos palestrantes, ela leva em consideração a diversidade de gênero e país de origem. “Claramente, se você tem uma maior diversidade, isso faz com que a ciência seja mais rica, mais produtiva, mais interessante”, defende.