Notícia

Pesquisadoras brasileiras da USP sequenciam genoma do coronavírus em tempo recorde

03.03.2020

Enquanto a média de sequenciamento em outros países é de 15 dias, equipe brasileira liderada pelas cientistas realizou todo o processo em 48 horas

O genoma do coronavírus foi sequenciado no Brasil em tempo recorde – e quem comandou esse feito foram duas mulheres cientistas! Em plena terça-feira de Carnaval, a confirmação do primeiro caso de coronavírus no Brasil fez com que Ester Sabino, diretora do Instituto de Medicina Tropical (IMT) da USP, e Jaqueline Goes de Jesus, pós-doutoranda na Faculdade de Medicina da USP e bolsista da agência de fomento Fapesp, liderassem um estudo para ajudar a entender a origem da epidemia. Apenas dois dias após o diagnóstico do paciente em São Paulo, a equipe de cinco pesquisadores coordenada pelas brasileiras sequenciou o genoma completo do coronavírus, realizando em 48h um processo que costuma demorar 15 dias em outros países .

 

Sequenciamento recorde feito no Brasil vai ajudar no monitoramento do coronavírus

 

A conquista das cientistas não é só um marco do empoderamento feminino na ciência, mas também uma contribuição incrível para todo o mundo. Desde que o novo agente do coronavírus foi descoberto no dia 31 de dezembro, após casos registrados na China, diversos países tiveram ocorrências confirmadas da doença – entretanto, nem todos fizeram o sequenciamento de suas amostras, o que dificulta o acompanhamento do problema. Agora, com a descoberta rápida das informações hereditárias do vírus que estão codificadas em seu DNA, fica mais fácil registrar mutações, pontos fracos e fortes do coronavírus.

“Alguns vírus são mais estáveis e outros, como os respiratórios, acabam mutando muito. É o que acontece com o vírus da gripe: todo ano a gente tem uma vacina nova, porque há muitas mutações”, explicou Jaqueline à BBC News Brasil. “A capacidade de sequenciar rapidamente, principalmente no início de uma epidemia, pode ajudar na tomada de decisões. Vamos supor que apareça outro caso em São Paulo: se você tem a sequência, você pode responder mais rapidamente se o vírus já está circulando a nível local independente de viagens no exterior (os chamados casos autóctones)”, completou Ester.

 

Pesquisadoras que coordenaram o sequenciamento do coronavírus já estudavam sobre epidemias como dengue e Zika

 

A pesquisadora Ester coordena o Centro Conjunto Brasil-Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (Cadde), que estuda epidemias de arboviroses, como dengue e Zika, em tempo real. Segundo ela, desde que os primeiros casos do coronavírus surgiram na Itália, sua equipe treinou pesquisadores para usar uma tecnologia de sequenciamento conhecida como MinION, a mesma que já é usada para monitorar a evolução do vírus Zika nas Américas.

Durante os dois dias de pesquisa, os pesquisadores responsáveis pelo sequenciamento do genoma do coronavírus foram coordenados por Jaqueline Goes de Jesus – que também desenvolve pesquisas sobre o mapeamento do Zika no Brasil. No processo, os brasileiros contaram com a colaboração remota de pesquisadores das universidades de Birmingham, Edinburgh e Oxford, no Reino Unido. Ao fim das 48h, a leitura do material foi finalizada e publicada no Virological.org, fórum mundial de discussão para virologistas, epidemiologistas e especialistas em saúde pública.