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Parent in Science: conheça o projeto que discute a maternidade (e paternidade!) dentro do universo da ciência brasileira

15.05.2020

(Fernanda Staniscuaski e filhos/ Foto: Flávio Dutra)

 

Você conhece o movimento Parent in Science? Traduzido como “Pai/Mãe na Ciência”, o grupo fundado em 2016 pela pesquisadora Fernanda Staniscuaski é formado atualmente por 14 mães cientistas (e um pai!) com o mesmo objetivo: trazer luz ao debate sobre os desafios e consequências de quem concilia a maternidade e carreira como cientista no Brasil. Hoje, por meio desse esforço em conjunto, o projeto leva para todo país a importância sobre o tema e, assim, tem alcançado mudanças concretas para pais e mães no cenário científico.

 

“Por muito tempo a maternidade foi invisibilizada dentro da academia. Vivemos pela máxima de que a vida pessoal tem de ser separada da vida profissional. Obviamente, existem limites, mas não tem como separar as duas coisas. E precisamos conversar sobre isso”, posiciona Fernanda.

 

Como surgiu o movimento Parent in Science?

 

Tudo começou com um desabafo nas redes sociais há 4 anos. Fernanda, com dois filhos na época, conta que estava tendo dificuldade em se dividir entre o papel de mãe e de cientista – e se sentia ainda mais frustrada por não ver outras pessoas falarem sobre o assunto. “Fiz um post no Facebook falando sobre como achava injusto pagar esse preço. A gente se dedica MUITO à ciência, posterga planos pessoais por ela, e quando precisamos de um pouco de flexibilidade, o sistema não oferece apoio algum. Aí, algo legal aconteceu: muitas pessoas responderam a publicação falando que estavam passando pelo mesmo”, lembra.

 

A partir dali, Fernanda acabou se unindo às pesquisadoras que se identificaram com seu relato para iniciar uma luta por um meio acadêmico e científico mais justo. Uma delas foi a cientista Rossana Soletti, sua colega de ensino médio. “Lembro de escrever que, como tinha tido duas filhas de idades próximas, tinha um buraco no meu currículo lattes que não poderia ser preenchido com a certidão de nascimento delas”, conta. Hoje, professora no Rio Grande do Sul e coordenadora das atividades de extensão do Parent in Science, Rossana faz a divulgação das atividades, auxílio nos simpósios, e organização de oficinas. 

 

(Rossana Soletti e filhas)

E foi assim, unindo esforços e lutas em comum, que elas fundaram o projeto – inicialmente com o objetivo de criar um fundo de auxílio à pesquisa para cientistas voltando de licença maternidade. “Em alguns países isso já existe, os chamados ‘re-entry grants’. Mas no Brasil (e, na verdade, no mundo) não existiam dados concretos sobre o impacto da maternidade na carreira. Então, decidimos criar um projeto de pesquisa sobre isso: com a m(p)aternidade afeta a vida dxs cientistas”, explica Fernanda.

 

Principais conquistas do movimento incluem a inclusão da maternidade no Lattes e de critérios específicos para mães em editais

 

Por meio da coleta de dados, o grupo formado por 15 cientistas começou a trazer luz sobre o debate em todo o Brasil, e suas ações levaram à grandes conquistas. “As edições de 2018 e 2019 do nosso simpósio, ambas apoiadas pela L’Oreal, foram momentos muito importantes para nosso movimento. Lá, com o apoio de 34 sociedades científicas, conseguimos o compromisso por parte do CNPq em incluir um campo para a licenças maternidade no Lattes. Infelizmente ainda não saiu do papel, mas seguimos pressionando”, relembra Fernanda. 

 

Além disso, somam-se ainda outras vitórias como o levantamento pioneiro de dados sobre o tema, além da inclusão de um critério específico para licença maternidade nos editais de financiamento e bolsas de várias instituições – o que garante uma análise mais justa do Lattes. “A inclusão de um ano a mais para avaliação de currículos de mulheres que tiveram filhos já foi adotada por várias universidades. É algo que está tomando força”, explica Rossana.

 

Projeto Parent in Science ainda pretende seguir na luta por todas as maternidades

 

Mesmo com tantas conquistas, as pesquisadoras lembram que o movimento não pode parar. “O Parent in Science teve um papel importante de colocar essa discussão à tona, mas infelizmente, ainda vemos muita injustiça no meio acadêmico. Temos um número menor de mulheres de chefia e liderança em grupos de pesquisa, inclusive em outros países, e acreditamos que a maternidade esteja envolvida nisso”, conta Rossana.

 

Agora, segundo Fernanda, a luta é para manter o que já foi conquistado e seguir lutando pelo direito de todxs. “Movimentos como o nosso são essenciais para que a ciência torne-se de fato diversa. São muitas as coisas em que precisamos avançar, e estes movimentos são a força para estas mudanças. Dentro da questão da maternidade, nosso movimento ainda precisa evoluir. São muitas as maternidades. Nosso discurso ainda é homogêneo, mas estamos trabalhando para avançar nas interseções, principalmente de raça”, destaca.

 

Participe da pesquisa feita pelo Parent in Science sobre os impactos da COVID-19 na carreira de cientistas!

 

E agora, que tal ajudá-las nessa missão? Neste momento, o grupo Parent in Science está com um questionário aberto sobre como o coronavírus está afetando a vida de cientistas aqui no Brasil. A ideia é pensar em ações que diminuam os impactos da pandemia na carreira dos(as) pesquisadores, mas, para isso, é preciso entender o que está acontecendo. Se você é cientista e quer participar, basta clicar no link do formulário que se encaixa com a sua atual situação acadêmica:

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