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Novas respostas para o câncer: veja a pesquisa de Andreia Melo, vencedora do Para Mulheres na Ciência 2020

02.10.2020

Entender mudanças relacionadas ao melanoma de mucosa para apontar novas terapias é o objetivo da vencedora na categoria Ciências da Vida

 

O melanoma de mucosa, um tipo raro de câncer, é um dos mais delicados até mesmo para a medicina. Por ter difícil visualização e não permitir diagnóstico precoce, ele tem comportamento mais grave e menor resposta aos tratamentos do que o melanoma primário de pele, outro tipo agressivo de câncer de pele. Mas por que isso acontece? A oncologista Andreia Melo, pesquisadora do Instituto Nacional de Câncer (INCA) e vencedora, na categoria Ciências da Vida, do prêmio Para Mulheres na Ciência 2020, busca responder a essa pergunta por meio de características moleculares que permitam entender o motivo de terapias existentes serem pouco eficazes para a doença. Confira na matéria como ela pretende responder esse questionamento e saiba mais sobre a sua trajetória na ciência!

 

Andreia Melo busca propor um tratamento mais adequado para o melanoma de mucosa

 

Na última década, o desenvolvimento de imunoterapias – tratamentos que potencializam a resposta imune – prolongou a vida de pacientes com diferentes tipos de câncer, incluindo o melanoma primário de pele, que pode formar metástases, se espalhando do local original para outras partes do corpo. No entanto, embora tanto o melanoma de pele quanto o melanoma de mucosa se originem das mesmas células (os melanócitos, que dão pigmentação à pele), para o melanoma de mucosa, os resultados das imunoterapias ainda não são tão promissores. 

 

A proposta de Andreia para preencher essa lacuna é um estudo translacional, que envolve desde análises em laboratório até uma proposta clínica. A perspectiva é que os resultados ajudem a propor, no futuro, um tratamento mais adequado para pacientes com este tipo de câncer metastático, para o qual atualmente a sobrevida mediana é menor que 12 meses. 

 

 

Dependendo das características moleculares dos tumores, um paciente pode enfrentar a enfermidade de forma mais ou menos favorável. “Muito do que se faz hoje na oncologia é buscar essas diferentes características para entender qual vai ser o desfecho da doença”, explica a pesquisadora. Para identificar as características que permitem melhores desfechos para o melanoma de mucosa, Andreia irá investigar duas décadas de registros de pacientes no INCA. 

 

Dados do INCA sobre diferentes respostas dos pacientes aos tratamentos podem ajudar a mapear novas oportunidades

 

Para entender como esses registros podem ajudar, primeiro, é preciso entender como o câncer funciona. Na prática, enganar o sistema imune é uma estratégia das células cancerosas para continuarem a proliferar e não serem reconhecidas. Elas fazem isso, por exemplo, produzindo moléculas que se ligam de forma específica às células de defesa e sinalizam que estas parem de se multiplicar e diminuam o ataque do organismo à doença. Um dos alvos dessa estratégia é a proteína de morte celular programada, conhecida como PD-1 e presente nas membranas dos linfócitos – células do sistema imune responsáveis por reconhecer e reagir a ameaças ao organismo, como as infecções por vírus e bactérias e os tumores. As células cancerosas podem produzir uma molécula (a PD-L1) que se liga à PD-1 e informa ao linfócito que não precisa continuar seu trabalho.

 

Na imunoterapia, essas duas moléculas são bloqueadas, de modo que o linfócito mantém sua atuação. “No melanoma de pele, funcionou bem. No de mucosa, existe alguma outra interferência que faz com que não funcione tão bem”, explica a médica. No INCA, a partir do material coletado de pacientes com melanoma de mucosa desde a década de 1990 até 2020, Andreia e sua equipe irão quantificar a presença das duas proteínas (PD-1 e PD-L1) e do infiltrado inflamatório – conjunto de células do sistema imune que se deslocam para o local lesionado pela doença. A ideia é associar esses dados com as diferentes respostas dos pacientes e com a região do corpo onde foi formado o melanoma.

 

Por ser uma doença rara, estima-se encontrar cerca de 80 amostras neste período. Para a análise, o primeiro passo é buscar dados clínicos no prontuário médico. No Departamento de Patologia, serão selecionadas as áreas com melhor visualização do tumor nas peças de biópsia e de cirurgia. A partir delas, serão feitas as análises imunohistoquímicas, que consistem na aplicação de anticorpos para determinar as proteínas presentes no tecido lesionado.

 

Pesquisadora contou com o incentivo da mãe para seguir carreira na área biomédica

 

 

Crescida em Lagoa Santa, em Minas Gerais, desde pequena, Andreia tinha interesse em ir para a área biomédica e seus pais, especialmente a mãe, a incentivavam a se concentrar nos estudos. “Minha mãe sempre foi uma figura muito forte, falava: ‘vai, estuda, aproveita essa oportunidade, faça o seu melhor que sua hora vai chegar´”, relembra a médica. Primeira geração da família a cursar uma universidade, ela mudou-se para a capital mineira nos primeiros anos do curso de medicina na Universidade Federal de Minas Gerais. 

 

Na época, tinha intenção de se tornar neurocirurgiã, mas, em sua residência em clínica médica no Instituto de Previdência dos Servidores do Estado de Minas Gerais, foi atraída para a área de oncologia: “Aquilo me encantou. Eu gostei muito da relação médico-paciente, que é desafiadora, é diferente, tem uma intensidade. Um paciente com câncer demanda diferente. Não só ele, como a família”, relata. 

 

A partir dessa experiência e estimulada por uma amiga residente no Instituto Nacional de Câncer, no Rio de Janeiro, a médica iniciou sua trajetória na instituição carioca, em que fez residência em oncologia médica, mestrado e doutorado. Como pesquisadora do INCA, Andreia atende pacientes e faz pesquisa com foco em três tipos de tumor: ginecológicos, melanomas e sarcomas. Em 2016, assumiu o cargo de chefia da Divisão de Pesquisa Clínica e Desenvolvimento Tecnológico do INCA, posição que ocupa até hoje. 

 

Andreia acredita na representatividade feminina e criou programa de mentoria para jovens em início de carreira

 

 

Ainda que mulheres tenham se equiparado aos homens em número de pesquisadores no Brasil segundo o censo de 2014 do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), existem barreiras que dificultam a permanência e a progressão das pesquisadoras na carreira científica e na ocupação de cargos de liderança. O INCA, por exemplo, fundado em 1937, teve sua primeira diretora no cargo apenas em 2016, a médica Ana Cristina Pinho. “Infelizmente, a gente ainda vive em um país machista, que favorece o homem, que favorece o branco e favorece quem teve mais oportunidades”, pondera Andreia. 

 

A pesquisadora destaca ainda a dificuldade de ser ouvida e de ter suas ideias reconhecidas em reuniões: “Eu ocupo uma posição em que tenho que tomar decisões. Em algumas situações, sentada em uma mesa com homens mais velhos, você é questionada, se sente minimizada ali, porque é mulher e é mais jovem”, conta. Andreia ressalta a importância de inspirar jovens em início de carreira e, na Sociedade de Oncologia Clínica, neste ano, iniciou um programa de mentoria para aquelas que estão finalizando a residência em oncologia. 

 

Hoje, ela vê no prêmio L’Oréal-Unesco-ABC Para Mulheres na Ciência um reconhecimento importante de seu trabalho e aconselha jovens pesquisadoras a se posicionarem diante de possíveis impedimentos: “A gente não pode aceitar o ‘não’ por ser mulher. Nós somos capazes e temos que nos posicionar. Temos que ser este agente de mudança que a gente tanto quer para uma sociedade mais igual, com mais oportunidades para todos, independentemente de gênero, cor e raça”, declara.