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Neurocientista da UFRJ: conheça a nova jurada do Para Mulheres na Ciência

09.07.2018

Em entrevista, Rosalia Mendez-Otero fala sobre a edição de 2018 do programa e a situação da ciência no Brasil

O júri do programa L’Oréal-UNESCO-ABC Para Mulheres na Ciência conta com uma nova participante: a neurocientista Rosalia Mendez-Otero, professora titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que agora integra a comissão de Ciências da Vida. Formada em Medicina pela mesma instituição, Rosalia fez pós-doutorado na Universidade de Yale, nos Estados Unidos, e hoje atua nas áreas de medicina regenerativa e doenças neurológicas.

Os jurados se reuniram no começo do mês, na Sede da L’Oréal Brasil no Rio de Janeiro, para escolher as sete vencedoras do prêmio em 2018. Para Rosalia, a experiência é gratificante, mesmo que trabalhosa: quase 200 projetos foram analisados na área de Ciências da Saúde. “É muito animador ver que tem muitas jovens com tanto talento com excelente produção no país”, disse ela. “É difícil escolher dentre esses nomes pois várias teriam condições de receber o prêmio”.

Confira a entrevista com a nova jurada:

Como foi sua trajetória como cientista até o momento?

Comecei como bolsista de iniciação científica na faculdade de Medicina. Durante a graduação, os professores de biofísica e fisiologia eram pesquisadores e falavam um pouco de suas pesquisas. Eu achei fascinante! A partir disso, me envolvi com a iniciação científica e logo descobri que queria seguir carreira na área. Depois que me formei, fiz mestrado em desenvolvimento do sistema nervoso. Fiz doutorado na UFRJ e pós-doutorado Universidade de Yale, nos Estados Unidos, trabalhando com moléculas que são expressas durante o desenvolvimento do sistema nervoso. Hoje, trabalho com pesquisa básica, pré-clínica e clínica no Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, com medicina regenerativa e doenças neurológicas.

Como você se sente em fazer parte da comissão julgadora do programa Para Mulheres na Ciência?

É minha primeira vez como jurada e estou achando muito interessante. O número de candidatas na nossa área foi enorme, o que foi um trabalho muito grande. Vi que nos mais variados cantos do país têm mulheres ensinando e fazendo ciência de qualidade. Acho isso muito positivo, considerando que o país está em uma situação muito grave de recursos financeiros. Vi que apesar de todas essas dificuldades, as cientistas, de alguma forma, conseguem fazer milagres.

Sendo mulher, como foi sua experiência no meio científico?

Sempre tive sorte de trabalhar em laboratórios com orientadores muito razoáveis, que nunca tiveram nenhum tipo de discriminação, mas certamente ainda existe preconceito, principalmente quando se chega aos níveis mais altos da carreira. Na faculdade de medicina, por exemplo, existe um número igual de meninas e meninos, mas quando você olha nos cargos dentro da universidade, a maioria dos professores titulares ainda são homens. Como isso acontece? É uma cultura que aos poucos tem que ser superada.

Como você vê a situação da ciência no Brasil e, principalmente, das mulheres no meio científico?

A situação da ciência no Brasil está muito ruim, porque nos últimos dois anos sofremos cortes de recursos – algo que afeta todos os setores. Em geral, os projetos são feitos a longo prazo e, dessa forma, não há como finalizá-los. Perde-se tudo o que havia sido feito. A falta de bolsas de estudos também desanima os jovens a seguirem carreira científica, o que também é ruim. A ciência precisa se renovar, mas se os jovens não procuram a universidade ou a academia, não podemos dar continuidade ao nosso legado.

Por que uma iniciativa como o Para Mulheres na Ciência é importante?

Porque dá visibilidade para um assunto importante. Acho que motiva outras jovens a seguirem carreira e chama atenção para a área. O programa demonstra que há possibilidade de reconhecimento e é muito importante para recrutar novos talentos.