Notícia

“Não sei dividir com três dígitos”, diz doutora em matemática e escritora de livros sobre o tema para crianças e adultos

24.07.2020

Espanhola Clara Grima se dedica a divulgar conhecimento científico e desmistificar a ideia de que ser bom em matemática é ter capacidade de fazer cálculos

 

Você se acha ruim em matemática? Isso pode ser apenas um reflexo da ideia de que pessoas boas nessa ciência são aquelas que fazem cálculos difíceis de cabeça – e é exatamente esse pensamento que a doutora em matemática e professora universitária Clara Grima busca desmistificar. Por meio de livros para adultos e crianças, a espanhola se dedica a divulgar o conhecimento científico e torná-lo menos tedioso do que apenas uma série de contas. “Para mim, a máquina de lavar lava melhor, um carro vai a uma velocidade que nunca alcançarei e uma calculadora calcula muito mais rápido do que eu. A beleza da matemática é pensar, é fazer algo que as máquinas não sabem”, explicou Clara à BBC Mundo.

 

“Crianças aprendem a odiar a matemática antes de estudá-la”

 

Pesquisadora e professora universitária desde 1995, Clara conta que decidiu apostar na divulgação científica em 2011 – ano em que, graças aos seus filhos, precisou começar a falar de matemática com crianças. “Conheci crianças de 5 ou 6 anos que me diziam: ‘eu não gosto de matemática’. E eu sempre respondo a mesma coisa, digo: ‘como você sabe se ainda não experimentou?’. Então percebi que as crianças aprendem a odiar a matemática antes de estudá-la, porque está no ambiente, na sociedade. É uma coisa simpática você dizer que não domina a matemática. Celebridades da televisão dizem isso, também alguns youtubers. E isso vai pegando”, ponderou Clara à BBC.

 

Doutora em matemática já se identificava com a matemática mesmo na infância

 

 

No entanto, esse não foi o seu caso na infância. A professora diz que, ainda pequena, enxergava a matemática como um jogo ou um mistério. “Lembro-me perfeitamente da primeira vez que resolvi uma equação do tipo x + 2 = 4. Lembro-me de gritar na sala de aula: ‘Que legal! Eu descobri uma coisa!’”, recorda. Mais tarde, na faculdade, algumas dificuldades fizeram com que Clara não se achasse tão boa quanto pensava – e foi então que ela descobriu uma maneira diferente de ver o mundo da matemática.

 

“Ao fazer minha tese de doutorado, descobri os grafos (ramo da matemática que estuda as relações entre os objetos de um determinado conjunto) e, pouco tempo depois, casei-me com meu orientador de tese. Então meus filhos nasceram e eles mesmos, com suas conversas, mudaram minha vida novamente e eu comecei a divulgação científica. Agora, dou palestras e escrevo livros (…). Não escrevo romances ou ensaios filosóficos, escrevo sobre matemática”, explica.

 

Uso dos grafos é uma das formas que Clara usa para facilitar a compreensão sobre a matemática

 

E por falar em grafos, essa é uma das táticas de Clara para mostrar a adultos e crianças que é possível modelar problemas matemáticos de uma maneira eficiente, resolvendo-os sem o tédio dos cálculos complicados – que, segundo ela, crianças são forçadas a fazer o tempo todo. Clara explica que um grafo é um objeto matemático composto de dois conjuntos de elementos: um são os pontos, que podem representar pessoas ou objetos, e o outro conjunto são listras ou linhas, que unem esses pontos dois a dois.

 

“Podemos usar o Facebook como exemplo. Cada um dos usuários seria um pequeno ponto e dois usuários que são nossos amigos no Facebook apareceriam unidos a nós por linhas finas. Isso nos daria um desenho: isso é um grafo”, explica. “O que prevalece na solução de problemas usando grafos é instinto e lógica, não a capacidade de fazer cálculos que, francamente, são chatos e inúteis. A máquina faz melhor. Sou doutora em matemática e não sei dividir com três algarismos nem sei calcular uma raiz quadrada à mão”, finaliza.