Notícia

Médica brasileira com COVID-19 foi salva pela técnica de ventilação mecânica que ajudou a desenvolver

17.07.2020

Pesquisadora Carmen Valente Barbas é conhecida internacionalmente por sua contribuição para o método usado em casos graves de coronavírus

 

Já imaginou ter sua vida salva por uma técnica que você mesma ajudou a criar? Foi o que aconteceu com a médica pneumologista e pesquisadora brasileira Carmen Valente Barbas, reconhecida internacionalmente por sua contribuição para a técnica de Ventilação Protetora Pulmonar, usada no tratamento de casos graves de COVID-19. Ao ter complicações respiratórias depois de contrair o coronavírus, ela foi salva pelo mesmo método de ventilação mecânica que dedicou a carreira para ajudar a criar – e tudo pelas mãos dos médicos que ela mesma treinou durante anos. Que tal saber mais sobre essa história? Continue lendo a matéria!

 

Durante o tratamento da COVID-19, Carmen contou com os cuidados dos colegas de hospital que ajudou a treinar 

 

Para Carmen, os primeiros sintomas do coronavírus apareceram no dia 19 de março. No grupo de risco da doença por ter 60 anos e ser hipertensa, ela logo tomou todos os cuidados possíveis – mas não foi suficiente. “Comecei a ter um pouquinho de dor de garganta, um pouquinho de tosse, uma dor no corpo bastante importante. Qualquer coisa que eu fazia era uma fadiga absurda. ‘Tem alguma coisa estranha acontecendo’, eu falei”, disse à BBC Brasil. Após fazer o teste e receber o resultado positivo para a COVID-19, Carmen foi à enfermaria do hospital Albert Einstein, onde trabalha há mais de 30 anos como intensivista.

 

 

No entanto, com o agravamento rápido do quadro para uma insuficiência respiratória grave no dia 29 de março, ela logo precisou ser levada à UTI. Nesse momento, na liderança da equipe que iria intubar e cuidar da ventilação mecânica de Carmen estava seu ex-aluno de doutorado, o intensivista e clínico geral carioca Gustavo Faissol Janot que trabalha com a médica há 16 anos. “A Carmen sempre foi nossa grande mentora. Vê-la doente, com necessidade de intubação, foi um dos momentos mais difíceis, senão o mais difícil, da minha carreira”, disse Gustavo à BBC Brasil.

 

Durante os dias na ventilação mecânica, Carmen confiou sua vida à técnica que ajudou a desenvolver e aos médicos que treinou – e o resultado foi o melhor possível! Após uma semana, a médica saiu da ventilação e permaneceu no hospital por mais 18 dias, sem sequelas. 

 

Aperfeiçoamento da técnica de ventilação mecânica já havia tornado Carmen conhecida internacionalmente

 

 

Enquanto estava no hospital, a notícia da internação de Carmen se espalhou e abalou diversos representantes da comunidade médica brasileira e internacional. O motivo é que a médica, ao longo dos seus 35 anos de carreira, se tornou uma sumidade internacional em ventilação mecânica. Filha de João Barbas Valente, pneumologista e ex-professor da Faculdade de Medicina da USP, ela decidiu seguir os passos do pai se formando na mesma faculdade e iniciando o doutorado em ventilação mecânica em 1995.

 

Com seus estudos clínicos ao lado do colega Marcelo Amato, Carmen e seu grupo levantaram a hipótese de por que pacientes com doenças pulmonares agudas tinham alta chance de morrer ao receberem a ventilação mecânica: segundo eles, a própria ventilação poderia estar danificando o pulmão dos pacientes. “Numa cirurgia, quando você faz uma anestesia geral, você entuba e ventila o paciente. Só que o pulmão lesado pela  Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo é mais ‘duro’. Quando você colocava volume corrente alto, isso gerava pressões muito altas no sistema respiratório e acabava lesando mais o pulmão”, disse à BBC Brasil.

 

Foi então que ela e seu grupo passaram a ventilar esses pacientes com um volume corrente mais baixo, entre outros ajustes, e ao final do estudo clínico o número de óbitos entre pacientes tratados com o novo método caiu para 40%. Assim, a equipe liderada por Carmen e seu colega Amato foi ganhando notoriedade internacional, ajudando a transformar a ventilação mecânica no mundo por meio da técnica hoje conhecida como Ventilação Protetora Pulmonar.