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Desvendando o óxido nítrico: entenda a pesquisa de Daniela Truzzi, ganhadora do Para Mulheres na Ciência 2020

29.09.2020

Vencedora da categoria Ciências Químicas busca desvendar o gás para desenvolvimento de remédios e tratamentos

 

Você sabia que o óxido nítrico, gás produzido naturalmente pelo corpo humano, está relacionado a processos como a contração dos vasos sanguíneos, a defesa imunológica e a cicatrização de tecidos? No entanto, ele também pode ser tóxico quando acumulado em excesso, causando reações inflamatórias. Para ajudar a desvendar o enigma ao redor dele, a química Daniela Truzzi, da Universidade de São Paulo (USP) aposta em uma lente de aumento que permita identificar detalhes da interação entre o óxido nítrico e outras moléculas do corpo para, assim, entender formas de usá-lo inclusive no desenvolvimento de medicamentos mais específicos do que os já existentes. 

 

Continue lendo e entenda mais sobre a pesquisa da nossa premiada da categoria Ciências Químicas no Para Mulheres na Ciência 2020!

 

Subprodutos do óxido nítrico são o foco da observação de Daniela Truzzi em estudo

 

Como dizia o médico e alquimista Paracelso (1493-1541), é a dose certa que diferencia o veneno do remédio. Para descobrir a medida correta de determinadas substâncias durante o desenvolvimento de remédios e tratamentos médicos, muitas vezes não resta outra alternativa além de tentativa e erro. Hoje, a cientista Daniela Truzzi, busca atalhos nesses processos. “Sabemos pouco sobre o que o óxido nítrico produz. Aprofundar esse conhecimento é fundamental para entender melhor os processos nos quais ele está envolvido”, explica.

 

 

Seu projeto observa especificamente uma categoria de subprodutos do óxido nítrico: os dinitrosilos complexos de ferro (DNICs), que aparecem em maior quantidade quando o gás é metabolizado. “Minha pesquisa quer entender como os DNICs são formados e como vão interagir com outras moléculas no corpo. É uma interface entre química e ciências biológicas. A gente trabalha com a fundamentação da química para entender um processo biológico. Apesar da sua importância, os DNICs ainda são uma interrogação para a ciência”, avalia.

 

Novos medicamentos mais específicos podem ser criados pelo estudo da cientista sobre óxido nítrico

 

Pesquisas anteriores lideradas por Daniela apontaram resultados promissores. A química e sua equipe já conseguiram decifrar como o óxido nítrico interage com moléculas pequenas para formar os DNICs. Agora, o desafio é compreender como essas interações ocorrem com moléculas maiores: as proteínas, cujas interações com DNICs são mais frequentes. Para isso, Daniela utiliza uma técnica chamada ressonância paramagnética eletrônica, que detecta a existência de moléculas instáveis, como é o caso do óxido nítrico e de alguns de seus subprodutos. 

 

Entretanto, o método não é 100% eficaz para detecção dos DNICs, motivo pelo qual ela também pretende desenvolver outras técnicas para chegar a conclusões mais precisas: “A ressonância consegue identificar DNICs, mas apenas uma parte deles é visível por essa técnica. É preciso desenvolver novas metodologias para visualizar o que não aparece na ressonância”, aposta. Essa sopa de letrinhas parece distante para quem está fora do laboratório, mas pesquisas sobre esses processos já ajudaram a melhorar a vida cotidiana de muita gente. O óxido nítrico está presente, por exemplo, em medicamentos para reduzir a pressão sanguínea. 

 

“O problema é que não se conhece por completo os subprodutos formados por essa molécula, como os DNICs. Entender a reatividade deles permitiria o desenvolvimento de medicamentos mais específicos, com liberação mais rápida ou mais lenta de óxido nítrico”, exemplifica. Dentre diversas aplicações possíveis, a liberação mais rápida permitiria um controle mais eficiente da pressão arterial, enquanto a liberação mais lenta seria importante para medicamentos que atuem no processo de cicatrização na pele.

 

Cientista e ex-aluna de escola pública, Daniela defende o empoderamento feminino e igualdade de gênero

 

 

Uma feliz representante da ciência básica, voltada à produção de novos conhecimentos, a pesquisadora de 35 anos encontrou nas moléculas o caminho para se aventurar rumo ao desconhecido. Após cursar a graduação em química ambiental pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), Daniela se apaixonou pela área e fez mestrado e doutorado em química inorgânica e analítica na Universidade de São Paulo (USP). Entretanto, a pesquisadora nascida em São José do Rio Preto, interior de São Paulo, não imaginou que fosse chegar tão longe. 

 

Sou cria da escola pública. Naquela época, fazer doutorado, morar fora [ela fez pós-doutorado na Universidade de Santa Bárbara, nos Estados Unidos] e ser professora em uma universidade pública pareciam objetivos inalcançáveis”, confessa. Para a química, embora a situação das mulheres cientistas esteja melhorando progressivamente, ainda há muito a evoluir. “A maternidade costuma ser vista como uma limitação. Temos que aceitar que a produtividade vai cair um pouco nesse período, o que não deve ser motivo para constrangimento”, defende Daniela.

 

Fora do laboratório, ela já se surpreendeu com preconceitos. “Quando fui aceita no pós-doutorado, meu marido largou o emprego para ir comigo. As pessoas estranharam um homem apoiar a mulher dessa forma, pois estão acostumadas com o contrário. Ainda é difícil para a sociedade encarar com naturalidade homens e mulheres em pé de igualdade, seja no trabalho ou em casa”, lamenta. 

 

Com o prêmio Para Mulheres na Ciência, Daniela Truzzi busca inspirar mulheres na Química

 

Apesar da dedicação, Daniela diz ter ficado surpresa ao receber o prêmio. “Eu já havia tentado em 2018 e decidi me inscrever de novo sem muita pretensão. É muito bom receber reconhecimento profissional e visibilidade, ainda mais no início da carreira”, comemora. A evidência em uma área ainda predominantemente masculina é um estímulo para planos mais ambiciosos no futuro. “A química ainda tem mais homens do que mulheres, e a gente precisa se impor um pouco. Se eu puder ser uma inspiração para as novas gerações pelo meu trabalho, ficarei muito feliz”.