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Jovem de 18 anos será a primeira pesquisadora brasileira a assistir a cerimônia do Prêmio Nobel

15.02.2019

Juliana Estradioto foi um dos destaques do prêmio Jovem Cientista com projeto de plástico feito a partir do maracujá

De quantas mulheres cientistas você ouviu falar enquanto estava na escola? Hoje, Juliana Estradioto, de 18 anos, pensa em ser o exemplo de pesquisadora que ela não teve durante a infância para a próxima geração de meninas. Aluna do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS), onde cursa o técnico em administração, ela conquistou o primeiro lugar no Prêmio Jovem Cientista 2018 – Categoria Ensino Médio. Seu projeto foi a criação de um plástico biodegradável feito a partir das cascas do maracujá, resíduo comum da agricultura em sua região.

Desde então, Juliana já participou de uma feira de ciências nos Estados Unidos e foi reconhecida por outros 11 prêmios científicos nacionais e internacionais. Todas as conquistas renderam a ela também uma distinção inédita: ser a primeira jovem brasileira a participar do Seminário Internacional de Jovens Cientistas de Estocolmo (Suécia), que inclui a oportunidade de assistir a cerimônia do Prêmio Nobel. “Quero que muitas outras meninas possam ter essa oportunidade”, diz Juliana. “Espero mostrar que nosso lugar é onde a gente quiser, e que podemos estar na Ciência, ser os exemplos que infelizmente não tivemos.”

Veja como foi a nossa conversa com Juliana:

PMNC: Como surgiu seu interesse pela Ciência?

Juliana: No quintal de casa! Gostava de subir em árvores, observar insetos e ficar em contato com a natureza. Digo que a ciência me escolheu e não o contrário, jamais imaginei que ia ser algo pelo qual eu ia ser tão apaixonada. Quando entrei no Instituto Federal, me envolvi em projetos e tive uma professora que realmente me incentivou a seguir nessa área. O contato com a ciência me ajudou a enfrentar um momento pessoal difícil, me fez querer ser uma pessoa melhor e mais determinada, além de persistente enquanto cientista.

Em que fase está seu estudo com o plástico feito de cascas de maracujá? Ele já está sendo aplicado?

Como ainda estou no ensino médio e minha escola não tem um laboratório específico voltado para pesquisa científica, precisei ir para uma universidade. Fizemos uma parceria com o laboratório da professora Simone Hickmann Flôres, no Instituto de Ciência e Tecnologia dos Alimentos da Universidade Federal do RS (ICTA-UFRGS). Foi difícil: como sou de uma cidade pequena, tive que me deslocar até Porto Alegre para fazer análises e realmente usufruir do laboratório. O processo feito dentro da escola foi mais custoso do que um teste em larga escala na universidade. Quando ingressar no curso de Engenharia Química, vou ter as condições e os equipamentos necessários para continuar o estudo.

O que mudou em sua vida desde o prêmio Jovem Cientista?

Minha vida mudou muito desde que eu entrei em contato com a área, participei de feiras de ciências e mostrei meu projeto. Transformei minhas habilidades ao decorrer da pesquisa, de realmente me dedicar ao máximo naquilo que gosto de fazer, que é estar no laboratório e explorar novas coisas. Antes, eu não acreditava que jovens – tão novas e com pouca experiência – pudessem fazer algo de novo. Para mim, isso foi muito chocante: ter noção de que os jovens não são só o futuro da nação, mas já são o presente – já estão atuando e mudando o mundo.

Agora, estou muito mais engajada, principalmente em mostrar o trabalho feito por jovens meninas. Estou criando um projeto nesse sentido, porque acho cada vez mais importante trazer a oportunidade de fazer ciência para meninas no ensino médio. A pesquisa ainda é uma coisa muito universitária no Brasil, mas com esforço se está levando essa pesquisa para jovens até mesmo no ensino fundamental. Quando vejo crianças no ensino fundamental fazendo ciência, fico chocada: já são cientistas mirins!

Alguma mulher cientista te inspirou durante sua trajetória? Qual a importância de meninas terem esse modelo ainda na infância?

Quando eu era criança, não tive um exemplo de mulher cientista no meu cotidiano.Toda vez que ouvia falar sobre filósofos, físicos e químicos a maioria eram homens. A partir do meu interesse em pesquisa, encontrei algumas cientistas que hoje admiro. A Gerty Cori é de quem mais gosto: ela foi muito importante na área da bioquímica e aplico as teorias dela no que eu faço, o que me deixa muito feliz. Minha orientadora, a professora Flávia Twardowski, é um exemplo de pessoa que atua para que jovens cientistas. O que tenho tentado mostrar é que nós, meninas, não temos exemplos de mulheres cientistas quando estamos no ensino médio. Meu desejo é que possamos ocupar esses espaços; que sejamos esse exemplo para as que estão chegando e querem ingressar na área.

Você é a primeira brasileira selecionada para assistir a cerimônia do Nobel. Quais são suas expectativas?

São 25 jovens do mundo inteiro que, além de participar da cerimônia, vão apresentar suas pesquisas. Chega a dar um frio na barriga só de falar! Quando contei à minha mãe que fui selecionada, expliquei que era tipo o Oscar da ciência. Vou estar em contato com as maiores mentes do mundo, todas ali bem na minha frente. Quem sabe um dia, em vez de assistir, estarei recebendo o prêmio? Estou realmente muito feliz!

Quais são seus planos para o futuro?

Quero atuar não só como cientista no laboratório, mas também quero atuar na parte de educação e divulgação científica para jovens do ensino médio. Muitas vezes nós somos desmerecidos por conta da pouca experiência e idade. A ciência me escolheu e pretendo continuar. Eu realmente acredito que os jovens podem ser protagonistas no desenvolvimento científico e podem mudar o mundo.