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Ganhadora do Para Mulheres na Ciência é a primeira mulher latino-americana a receber prêmio da Royal Society of Chemistry do Reino Unido

06.06.2018

A cientista Márcia Mesko teve sua trajetória de pesquisa reconhecida pelo prêmio Pesquisador Emergente

A cientista Márcia Mesko, ganhadora do prêmio L’Oréal-UNESCO-ABC Para Mulheres na Ciência, em 2012, recebeu uma distinção inédita no mundo: foi a primeira mulher da América Latina a receber o prêmio Pesquisador Emergente, da Royal Society of Chemistry do Reino Unido. O objetivo da premiação é valorizar a contribuição de jovens cientistas de todo o mundo com até dez anos de doutorado. Indicada por cientistas internacionais renomados, a química foi avaliada por sua produção científica ao longo da carreira. “Foram mais de 20 pesquisadores indicados por cientistas do mundo inteiro. Ser a primeira mulher da América Latina a ser reconhecida pelo prêmio representou muito”, comemorou Márcia.

Professora do Departamento de Química da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Márcia fez seu mestrado e doutorado em Química Analítica na Universidade Federal de Santa Maria. “A área de química costuma ser pouco atrativa para parte da população, ainda mais para mulheres. Então é muito interessante a oportunidade de divulgar um trabalho na área”. Seu trabalho vencedor do Para Mulheres na Ciência estudava a capacidade da microalga Chlorella vulgaris – usada em produtos de beleza para potencializar sua ação – de absorver nanopartículas de dióxido de titânio presentes na água.

Confira a entrevista com Márcia Mesko sobre a carreira e o prêmio da Royal Society of Chemistry do Reino Unido:

Como foi receber o prêmio Pesquisador Emergente? O que representou para você?

Essa distinção acompanha toda a minha trajetória científica até então: são avaliados currículos de pesquisadores do mundo inteiro, buscando aqueles com a melhor produção científica ao longo da carreira. Pesquisadores renomados do mundo todo são convidados a identificar os jovens pesquisadores e fazer a indicação. Esse está tendo uma repercussão muito grande, assim como aconteceu em 2012, quando ganhei o Para Mulheres na Ciência. Acaba que tem um papel social interessante também: aproxima-se o debate científico da sociedade quando alguém divulga que o que se faz dentro da universidade é importante, e destaca que existem pesquisas que estão muito próximas da gente.

Qual foi a sua motivação para seguir uma carreira na área de Química?

Durante a graduação, fiz iniciação científica na área de físico-química na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), e fui fazer mestrado e doutorado na área de química analítica na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Desde criança eu gostei dessa área – brincava em casa de fazer perfumes e de extratos de algumas coisas – mas não sei dizer quando, de fato, começou esse interesse. Com 13 anos, eu fiz meu curso técnico em Química e, desde então, comecei a me envolver com diversas atividades práticas e não parei mais.

Qual é sua principal linha de pesquisa?

Desde o mestrado, minha principal linha de pesquisa foi o desenvolvimento de testes analíticos de determinação tanto de elementos tóxicos quanto essenciais. Nisso, eu venho trabalhando com a parte de halogênios em alimentos, que foi o que desenvolvi em uma parte do meu doutorado.

Como o reconhecimento do prêmio está impactando sua carreira e seus estudos?

O principal de tudo é o estímulo para mim e meus alunos. Acredito que cada um dos prêmios e distinções promove o surgimento de ideias e a busca por maior qualificação. E motiva os alunos a aproveitarem as oportunidades que eles têm. Minhas dificuldades são muito parecidas com as deles: eu também vim de família simples, tive dificuldades para me manter estudando e estudei em instituições públicas de ensino. Acredito que seja um motivador para todos!

Quais são os seus planos para o futuro?

Tenho bastante interesse em me manter na pesquisa – embora hoje esteja um pouco mais difícil com a diminuição do apoio no país. Minha vontade é seguir estudando e pesquisando mais, investindo mais nessa parte de cosméticos, que é uma área que eu gosto bastante e acho que tem muito a explorar.

Como você vê a situação da ciência no Brasil hoje e, especialmente, em relação às mulheres?

A situação da ciência no país hoje é bastante crítica. É difícil manter um grupo de pesquisa onde não se consegue bolsas para os estudantes. Um dos problemas que a gente enfrenta hoje que são graves é a demora para conseguir recursos em editais. Manter ou criar novas estruturas na minha área depende muito de instrumentação, então é preciso renovar os equipamentos para se trabalhar. Hoje, infelizmente, a gente passa por uma grande dificuldade e acredito que isso afeta mais ainda quando se fala na mulher inserida na pesquisa. O trabalho de inclusão social e ações afirmativas que algumas instituições públicas fazem beneficia muito a vida das mulheres, porque nos dão oportunidades diversas – por exemplo, mulheres podendo deixar seus filhos em uma creche ou lugar adequado para seguir estudando. Hoje, essas ações são mais restritas e com certeza afeta o impacto da mulher na ciência.

Como você acredita que esse cenário pode ser melhorado?

O apoio público e ações afirmativas são importantes para realmente inserir as mulheres na sociedade e no mercado de trabalho, para que trabalhem com os mesmos direitos e o mesmo reconhecimento dos homens. Vai levar um tempo e necessita de investimento em cultura e educação para chegarmos a esse cenário.

Felizmente existem iniciativas com o prêmio promovido pela L’Oréal com a UNESCO e a ABC, que faz um trabalho de promover as mulheres no meio científico. Com o prêmio, a mulher consegue se enxergar como pesquisadora, quando muitas vezes está reprimida em um universo que não a reconhece ou não quer reconhecer. Ações como essas são extremamente importantes, porque são um forma das mulheres se auto afirmarem. Sempre lutei para que meu trabalho fosse reconhecido e não tive medo de me inserir, mas com certeza sofremos em alguns momentos em função do gênero, infelizmente. Isso está melhorando muito e a tendência é que isso seja cada vez mais efetivo.