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Enigma matemático é decifrado por uma mulher depois de meio século sem respostas

10.07.2020

Universitária americana Lisa Piccirillo foi a responsável por resolver o “nó de Conway”, sem solução desde 1970

 

Uma mulher decifrou em menos de uma semana o que matemáticos de todo o mundo não conseguiam responder há meio século: depois de conhecer o enigma em um seminário, a universitária americana Lisa Piccirillo resolveu o chamado “nó de Conway”, proposto pelo inglês John Horton Conway em 1970. O resultado? Sua resolução foi publicada e ela conquistou uma posição permanente no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) pouco mais de um ano após a graduação – provando mais uma vez que a matemática precisa cada vez mais de mulheres! Que tal saber mais sobre essa história? Confira abaixo!

 

Descoberta matemática feita por Lisa foi feita de forma despretensiosa pela estudante

 

Mesmo tendo feito uma grande contribuição para a matemática, Lisa parecia não ter dimensão de que estaria entrando para a história da ciência com sua conquista. Segundo ela, ao comentar sobre a descoberta que havia feito alguns dias antes, ficou surpresa com a reação de seu professor de matemática Cameron Gordon. “Ele começou a gritar: ‘Por que você não está mais animada?'”, lembra ela ao site de notícias científicas Quanta.

 

Na mesma conversa, em 2018, Cameron Gordon adiantou para Lisa que a solução descoberta pela jovem – naquela época, aluna de doutorado na Universidade do Texas, nos Estados Unidos – seria divulgada, e assim foi. A resposta para o “nó de Conway” encontrada pela universitária foi publicada em março do mesmo ano pela prestigiada revista Annals of Mathematics.

 

Mas o que é um nó matemático?

 

Os nós matemáticos são estudados em topologia, ramo da matemática que estuda os espaços topológicos, que são arranjos espaciais, e é considerada uma extensão da geometria. A teoria dos nós, apesar de ser inspirada pelos nós que vemos no dia a dia, como em cadarços, se diferencia da noção matemática de nó em alguns pontos. “A ideia intuitiva que precisamos ter é imaginar uma corda que amarramos e da qual colamos as pontas”, explica a matemática Marithania Silvero, do Instituto de Matemática da Universidade de Sevilha, Espanha, à BBC News Mundo. Assim, para resolver um nó matemático, você pode provocar deformações na nessa corda. Ou seja, é possível torcê-la, envergá-la, esticá-la ou até comprimi-la, mas nunca cortá-la. É uma área da ciência onde é preciso abstrair conceitos.

 

No caso do Nó de Conway, a proposta feita foi um nó com 11 cruzamentos e, desde então, nenhum matemático conseguiu dizer se era possível ou não fatiá-lo. No entanto, poder fatiar um nó não tem a ver com cortá-lo ao meio, mas sim com suas “fatias” distribuídas pelas quatro dimensões do nosso mundo – na topologia, o tempo é considerado esta quarta parte do universo. “Nós matemáticos, quando temos que classificar nós, estudamos diferentes propriedades que os nós têm. Uma dessas propriedades é ser ou não ser fatia (slice)”, explicou Marithania à BBC. Assim, por exemplo, uma esfera bidimensional é a borda de uma bola tridimensional, e um espaço tridimensional seria a borda de um espaço quadridimensional.

 

E o que a estudante fez para solucionar o nó de Conway?

 

Na resolução de Lisa, a conclusão foi de que o nó de Conway não é um slice. Para isso, o método da estudante foi substituir o nó de Conway por outro que ela mesma inventou, no qual a propriedade slice era mais fácil de estudar. Depois, ela usou uma série de técnicas que acabaram provando que seu nó não era um slice e, portanto, não era o de Conway. “Com o resultado, encerramos a classificação dos nós com menos de 13 cruzamentos quanto a serem slice ou não”, disse Marithania.

 

Conquista de Lisa traz mais representatividade feminina na matemática 

 

Mesmo sem grandes pretensões, Lisa contribui não só para o ramo da matemática que estuda os nós, mas também para o empoderamento feminino na área de ciências exatas. “Existe um significado simbólico muito importante quando pensamos que essa descoberta foi feita por uma mulher. Isso contribui para o aumento da representatividade feminina na área da matemática e, principalmente, traz uma quebra de estereótipos, mostrando o quanto a contribuição das mulheres é fundamental e valiosa para o avanço da ciência”, explica Jaqueline Mesquita, professora do Departamento de Matemática da Universidade de Brasília e uma das vencedoras do prêmio Para Mulheres na Ciência 2019.