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Efeitos do COVID-19 na saúde mental de jovens: conheça a pesquisa de Luciana Tovo, vencedora do prêmio Para Mulheres na Ciência

14.09.2020

Por meio de amostras de cabelo, a pesquisadora se dedica ao estudo do estresse em adolescentes

 

O medo de ser infectado ou de ter seus familiares infectados, a limitação de ir e vir, a impossibilidade de encontrar seus amigos, a interrupção do ensino presencial, as restrições financeiras familiares… Como todas essas situações impostas pela pandemia da Covid-19 têm afetado a saúde mental de jovens e adolescentes? É exatamente isso que a pesquisadora Luciana Tovo busca entender – e tudo por meio de amostras de cabelo! Quer conhecer mais sobre o estudo e a trajetória da professora da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e vencedora, na categoria Ciências da Vida, do prêmio L’Oréal-Unesco-ABC Para Mulheres na Ciência 2020? A gente te conta na matéria!

 

COVID-19 surgiu no meio do trabalho de pesquisa de Luciana Tovo sobre o estresse em adolescentes 

 

Luciana e sua equipe já se dedicavam ao estudo do estresse em adolescentes em 2019, mas precisaram interromper o trabalho quando a Covid-19 explodiu no país. “Contamos com a sorte ou com o azar de sermos atingidos pela pandemia bem no meio do trabalho de campo”, conta a pesquisadora que viu na situação, uma oportunidade. A cientista já havia coletado dados de quase 2 mil jovens antes da pandemia e, então, viu a possibilidade de seguir os estudos, coletando amostras de outros 1,5 mil jovens após o período de confinamento imposto pela Covid-19.

 

 

Essas amostras, por sinal, são nada mais, nada menos, do que fios de cabelo – usados para fazer a medição de estresse crônico a partir do cortisol capilar. Normalmente, os níveis de cortisol, conhecido como hormônio do estresse, variam ao longo do dia – altos pela manhã e mais baixos durante o sono. No entanto, quando alguém está submetido a situações de estresse, os níveis se mantêm altos por mais tempo. Ao longo do dia, parte desse hormônio é depositado no cabelo. “O cabelo cresce, em média, um centímetro por mês. Avaliamos os três centímetros mais próximos da raiz, de modo a mensurar o estresse vivenciado nos três meses anteriores à coleta”, explica a cientista.

 

A técnica de extração e medição do cortisol capilar é cara e trabalhosa. No laboratório, a amostra de cabelo é lavada e moída. O cortisol é extraído com ajuda de uma série de reagentes e quantificado. “Para uma amostra, levamos em torno de 10 dias de processamento. Precisamos de uma equipe muito bem treinada, é um trabalho complexo e cansativo”, revela Luciana. 

 

Infância e a adolescência são períodos da vida críticos para início de transtornos psiquiátricos

 

Referência em estudos longitudinais e composto por uma equipe interdisciplinar de médicos, biólogos, criminologista, nutricionistas e psicólogos, entre outros, o Centro de Pesquisas Epidemiológicas da UFPel observa a relação existente entre fatores de risco e diferentes enfermidades crônicas em grupos da população ao longo do tempo. No estudo coordenado por Luciana, são analisados os jovens nascidos em 2004, acompanhados regularmente desde o nascimento, com enfoque em entender como características psicológicas e transtornos psiquiátricos se manifestam ao longo da vida.

 

Como crianças e adolescentes apresentam, em sua maioria, sintomas mais brandos decorrentes do coronavírus e não representam um grupo economicamente ativo, em meio a uma séria crise política e econômica, poucos estudos têm se dedicado a entender os efeitos da pandemia neste grupo. Na visão de Luciana, porém, o tema é absolutamente importante. Sabemos que a infância e a adolescência são períodos da vida críticos para início de transtornos psiquiátricos, como depressão e ansiedade, que estão altamente correlacionados ao estresse e podem ter um impacto muito grande na vida adulta”, argumenta. 

 

A hipótese da geneticista é que, possivelmente, os níveis de cortisol após a pandemia serão maiores em jovens do sexo feminino que: já apresentavam previamente transtornos mentais, deficiências ou outros problemas de saúde; que estejam em famílias em situação vulnerável; que tiveram familiares afetados; ou que tenham mães que trabalhem na área de saúde. Serão investigadas ainda as relações entre estresse e obesidade, problemas de sono e contato excessivo com notícias na mídia.

 

Cientista é especialista no estudo de fatores genéticos de doenças e suas interações ambientais em populações

 

 

Nascida em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, Luciana não teve exemplos de pessoas ligadas à área científica na família: o pai cursou direito, e a mãe e o irmão, administração. Optou por seguir a área de ciências biológicas pelo interesse em estudar os seres vivos e o funcionamento do cérebro. “Eu sempre tive um fascínio pelo sistema nervoso. Tudo que era relacionado à neurotransmissão e ao funcionamento do cérebro me interessava muito”, conta.

 

Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde cursou graduação, mestrado e doutorado, especializou-se na área de epidemiologia genética, que estuda fatores genéticos de doenças e suas interações ambientais em populações. Durante o doutorado, teve a oportunidade de realizar um estágio nos Estados Unidos, no Instituto Nacional de Adição em Drogas. Hoje, como pesquisadora e docente na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pelotas, Luciana mantém colaboração de pesquisa com grupos internacionais. “É muito bom trabalhar em colaboração, a gente aprende muito e também ensina. É muito bacana ver como eles respeitam nosso estudo e a gente trabalha de igual para igual nessa parceria”, relata. 

 

Receber Prêmio Para Mulheres na Ciência foi uma maiores felicidades de Luciana

 

Ser pesquisadora, para Luciana, é um trabalho que requer esforço e dedicação. Como coordenadora do Laboratório de Amostras Biológicas do Centro de Epidemiologia da UFPel, preza por se manter presente no cotidiano de experimentos de seu grupo de pesquisa, no qual orienta alunos de iniciação científica, mestrado e doutorado. Ela conta que uma das motivações de Luciana para se inscrever no concurso era apresentar uma ideia que pudesse ser avaliada por um júri qualificado e ter seu trabalho reconhecido. Para ela, receber o prêmio foi uma das maiores felicidades de sua vida: “É uma alegria tão grande. É uma honra para mim ser uma das sete representantes do prêmio este ano”.