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Conheça Zélia Ludwig, professora de Física que estimula jovens cientistas na carreira e luta pela permanência de mulheres negras nas Ciências

29.11.2019

A pesquisadora montou um laboratório de física para seus alunos e desenvolve projetos de Ciência em escolas com materiais de baixo custo

Zélia Ludwig é professora e pesquisadora de Física do Instituto de Ciências Exatas na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), mas sua atuação se estende para múltiplas áreas. Com um trabalho focado na produção de vidros dopados com nanopartículas metálicas, semicondutores, terras raras e fibras ópticas nanofotônicas, Zélia montou o Centro de Pesquisa em Materiais da UFJF, laboratório criado para ajudar alunos a desenvolver seus trabalhos. A estrutura foi elaborada com ajuda do pai da professora, que é torneiro mecânico, e de técnicos da UFJF, que não contaram com nenhum suporte financeiro.

Atualmente, o laboratório não só produz materiais vítreos, mas também trabalha no crescimento de cristais e na caracterização de alimentos para controle de qualidade. A equipe ainda cria vidros ultra resistentes e trabalha no desenvolvimento de bicarões extraídos de castanhas e de outros produtos descartados. Mas além do meio acadêmico, Zélia também visita escolas e desenvolve projetos de Ciência com materiais de baixo custo, softwares de uso livre, placas de Arduíno, tampinhas e fios. A iniciativa conta com pessoas de várias áreas, inclusive das artes, música, contadores de histórias e alunos de graduação.

A pesquisadora desenvolve ainda um projeto que visa a inserção e a permanência de mulheres na Ciência. “As dificuldades que a vida me impôs me fizeram ter um olhar sobre as questões sociais, principalmente das mulheres negras. O programa não trabalha só com mulheres, homens também são bem-vindos. Como diria meu pai, eles precisam entender que as mulheres estão aqui para somar, não para diminuir o trabalho que vem sendo feito”, defende.

“Se você acredita, corre atrás e faz o seu sonho virar realidade”, conta Zélia sobre sua trajetória

Zélia é mineira, nascida na cidade de Indaiatuba, e começou sua trajetória quando a família decidiu se mudar para São Paulo. Foi na Universidade de São Paulo (USP) que a atual professora se formou em Física e começou a viver a Ciência na prática. Por meio do mestrado e do doutorado no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares da USP, Zélia teve contato com técnicas modernas que deram uma formação sólida para desenvolver seus atuais projetos. 

Além disso, a pesquisadora também fez viagens internacionais e conheceu outros laboratórios que a ajudaram a ver a importância da pesquisa que realiza. “Até hoje tem aluno meu que fala que pisou na USP e que conheceu as instalações por minha causa. Isso é muito gratificante”, conta. Foi somente após esse período que a professora foi aprovada para lecionar na UFJF, onde desenvolveu um laboratório para orientar seus alunos e grupos de outras universidades. 

Mas nada disso seria possível sem o sólido apoio da família. “Meu pai sempre me dizia: se você acredita, corre atrás e faz o seu sonho virar realidade. E foi com meus pais que aprendi a ser resiliente e a fazer bem feito minhas tarefas”, lembra. A professora conta que não foi nada fácil se tornar cientista e que precisou de muito incentivo para permanecer na profissão. “À medida que fui subindo na carreira, foi ficando mais complicado. Mas minha família sempre me apoiou em tudo, inclusive nas minhas empreitadas nas comunidades”, explica.

Além das dificuldades cotidianas da profissão, Zélia conta que também teve que enfrentar o desafio das mudanças físicas em busca de oportunidades e a troca da linha de pesquisa e dos grupos em que se inseria. Mas a principal transformação foi a que ocorreu em sua vida pessoal. “Ao contrário do que muita gente pensa, ser cientista me tornou muito mais humana e com uma visão sobre o mundo à minha volta que me faz buscar incluir a diversidade no que faço e mostrar para os outros que isso é possível, basta querer”, defende.

Para a professora, é preciso gerar representatividade para aumentar a participação de mulheres negras nas Ciências

Para a pesquisadora, o ingresso de mulheres nas áreas da Ciência têm aumentado, mas ainda é preciso fazer muito mais para incentivar a participação de outras mulheres e para garantir que as atuantes não desistam por falta de oportunidades. Zélia revela que em torno de 99% da população das comunidades é composta por negros e que, muitas vezes, informações sobre ciência e tecnologia não chegam a esses lugares. “É preciso levar representatividade. Se ela vier em uma cientista negra, a criança vai se sentir representada e vai se identificar”, explica.

Zélia pontua que a ausência de mulheres negras em cargos de destaque dentro de agências de fomento à pesquisa na Academia ainda é muito grande e que muitas delas não têm acesso às tecnologias, aos computadores e nem condições de frequentar cursos de inglês. Para ela, a desigualdade de gênero e a falta de representatividade ainda são obstáculos no meio acadêmico, mas que já é possível notar uma mudança. Para isso, é preciso que o espaço de fala e de escuta evoluam e que as mudanças se concretizem.

Prêmios como o Para Mulheres na Ciência são um incentivo para minimizar esses desafios, mas a pesquisadora defende que é preciso investir mais na diversidade e na abrangência de mulheres negras. Além disso, Zélia acredita que é importante divulgar o prêmios nas universidades e na mídia para que cada vez mais mulheres possam ser contempladas.

“A ciência se constrói com a diversidade, não com a competitividade”, incentiva Zélia

Despertar o interesse em meninas e mulheres que nem sabem sobre ciência. Para Zélia, esse é o primeiro passo, que deve partir da escola e dos professores. Além disso, o incentivo da família também tem papel fundamental no desenvolvimento de jovens cientistas. À sociedade cabe parar de reforçar estereótipos e abrir oportunidades de escolhas. “Homens e mulheres precisam se ajudar mais dentro da academia. A ciência se constrói com a diversidade, não com a competitividade”, termina.