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Conheça Rita de Cássia, astrofísica vencedora do Para Mulheres na Ciência que investiga a origem dos raios cósmicos

08.09.2020

Vencedora na categoria Ciências Físicas, a pesquisadora investiga a possível relação desses raios com galáxias de intensa formação de estrelas

 

Cientista, mulher, negra e a caçula de oito irmãos, Rita de Cássia dos Anjos diz que se inspirou na mãe para desenvolver um olhar curioso e investigativo do mundo. “Ela falava: ‘Você tem que ter curiosidade em saber como as coisas são, o porquê de serem assim’. Isso me motivou bastante a gostar de ciências’, conta a pesquisadora. Hoje, física da Universidade Federal do Paraná e uma das ganhadoras do prêmio L’Oréal-Unesco-ABC Para Mulheres na Ciência 2020, ela vem dedicando a mesma curiosidade dos tempos de menina para desvendar um interessante mistério do universo: a origem dos raios cósmicos e sua possível relação com galáxias de intensa formação de estrelas. Quer saber mais sobre essa história? Confira a matéria!

 

Interesse de Rita de Cássia pela física surgiu no pré-vestibular em São Paulo

 

Rita passou sua infância na cidade de Olímpia, no interior de São Paulo. Por causa do ensino de pouco enfoque nas ciências exatas na escola, optou, primeiramente, pelo curso de biologia. Como não ingressou em sua primeira tentativa, passou a frequentar um curso pré-vestibular. “Foi o começo do meu encontro com a física”, relembra a cientista. Pouco tempo depois, ela juntou os dois interesses – física e biologia – ao integrar a primeira turma de graduação em física biológica na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), mas ao perceber que tinha mais afinidade pela física, seguiu a trajetória acadêmica na Universidade de São Paulo, campus São Carlos, onde fez mestrado e doutorado em física. Três meses após defender a tese, se tornou docente e pesquisadora da Universidade Federal do Paraná em Palotina.

 

 

Na mudança de São Carlos para o interior do Paraná, apesar da nova realidade, com menos estrutura para pesquisa e alta carga horária em sala de aula, Rita descreve, com satisfação, o espaço que criou em pouco tempo. “É bacana você ir construindo. Se você entra em um centro de pesquisa renomado, você é mais um ali, vai demorar para conseguir ter seu espaço e ser uma liderança. Em contrapartida, se você entra em um lugar que não tem muitos recursos, você tem a oportunidade de lutar e ser diferente. Demora, mas é uma coisa que vale bastante a pena”, conclui. 

 

Cientista decidiu dedicar os estudos a investigar galáxias próximas para desvendar os raios cósmicos

 

Na sua área de atuação, Rita faz um trabalho como o de um detetive, tentando reconstruir o caminho que raios cósmicos fazem desde o espaço sideral até a superfície. As pistas para desvendar o mistério envolvem, neste caso, telescópios poderosos e modelos matemáticos. Nesse estudo, uma das perguntas que motivam a pesquisadora é se galáxias em que há intensa formação de estrelas, conhecidas como galáxias starburst – que estão entre as mais luminosas do universo e apresentam fortes ventos – podem ser fontes de aceleração e propagação de raios cósmicos. A direção de chegada de partículas cósmicas detectadas recentemente na mesma direção dessas galáxias pode ser um indício dessa relação.

 

“Investigamos as galáxias próximas [localizadas em até 326 milhões de anos-luz]. Se considerássemos as distantes, as partículas teriam que viajar muito para chegar até a Terra”, explica a astrofísica. Assim, como física teórica, Rita cria modelos matemáticos para simular a viagem das partículas a partir das galáxias, quantifica a perda e o ganho de energia dos raios cósmicos a partir dos efeitos do seu campo magnético e compara os resultados do modelo com as informações obtidas por observatórios astrofísicos. “A gente faz um processo que chamamos de reconstrução: pegamos o rastro que o raio cósmico deixou, além de outras características, e fazemos o retorno dele. Qual o possível caminho dele até a fonte?”. 

 

No Observatório Pierre Auger, na Argentina, do qual Rita é colaboradora, são usadas duas técnicas de detecção dos raios. A primeira detecta o rastro da partícula quando passa pela atmosfera, por meio de telescópios de fluorescência – que, por serem sensíveis à luz, só podem ser abertos na escuridão da noite. Já a segunda técnica se dá em grandes tanques de água límpida, onde é feita a detecção das partículas cósmicas que colidiram com as partículas da atmosfera – um fenômeno conhecido como chuveiro de partículas. A partir desses dados, a pesquisadora propõe um modelo para a propagação das partículas no espaço.

 

Ciência, equidade racial e empoderamento feminino estão na lista de prioridades de Rita

 

 

Como pesquisadora negra, Rita já vivenciou diversas situação de racismo dentro e fora da academia, e acredita na importância do sistema de cotas para favorecer uma maior equidade racial. “Quando você vai a um restaurante, qual a cor da pessoa que te serve?”, argumenta, sobre a importância de aumentar as oportunidades de acesso e representatividade da população negra nas carreiras de maior prestígio e remuneração. 

 

Por isso que, pensando em mudar a realidade da população negra, a cientista se envolve, desde a graduação, em projetos de extensão e na formação de jovens e professores. “Para daqui a dez anos você ir se consultar com um neurologista e ele ser um pesquisador negro”, explica ela. Atualmente, Rita também desenvolve metodologias para auxiliar o ensino e o aprendizado na área de física para estudantes do ensino médio com deficiência visual. 

 

Junto a isso, a cientista também dedica seu tempo para colaborar com o projeto “Rocket Girls: Meninas na Astronomia e na Astronáutica”, coordenado pela pesquisadora Mara Fernanda Parisoto. Ele realiza atividades em robótica, arduino e astronomia com meninas de escolas públicas de Palotina, e a ideia da iniciativa é motivar as jovens a se interessarem pelas ciências exatas – área historicamente excludente e masculina. “Quando você mostra que passou por dificuldades, quando você fala da sua realidade e mostra para as meninas que é possível, elas se animam”, reflete Rita.

 

Prêmio Para Mulheres na Ciência tem um significado especial para a astrofísica 

 

Para a pesquisadora, a formação contínua é um dos aspectos fundamentais do trabalho de cientista. “Independentemente do nível na carreira, forme quem está ao seu lado. O aluno de pós-graduação pode trabalhar com os jovens do ensino médio, as meninas do ensino médio podem trabalhar com o ensino fundamental. Essa interação é de extrema importância para a formação política, econômica e científica de nossas crianças”, aposta a pesquisadora.

 

Agora, justamente por seu histórico de persistência na educação e ciência, Rita revela que a conquista do prêmio Para Mulheres na Ciência tem um significado especial: “Quando eu olho a minha trajetória e vejo que ganhei esse prêmio, para mim, é uma coisa muito importante, porque mostra o quanto você pode fazer com pouco, o quanto a perseverança e o trabalho diário podem fazer a diferença”. A cientista destaca ainda o reconhecimento do prêmio entre os pares na academia. “Quando uma mulher ganha um prêmio, quando ela mostra que tem um laboratório de pesquisa que ela construiu, entre os pares, isso significa muito”, avalia.