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Como deixar a soja mais resistente à estiagem? Fernanda Farnese, vencedora do Para Mulheres na Ciência busca a resposta

21.09.2020

Cientista desenvolve método com óxido nítrico para a soja em períodos inesperados de seca

 

Não é exagero dizer que a soja vale ouro para o Brasil, atualmente maior produtor mundial do grão. No entanto, a ocorrência frequente de períodos de seca fora de hora no país ainda é um desafio que tem custado caro para a nossa economia: com recentes períodos de estiagem e calor intenso em plena estação chuvosa, plantações inteiras são prejudicadas. A solução para o problema? Segundo a bióloga Fernanda Farnese, do Instituto Federal Goiano (IF Goiano), o uso de óxido nítrico pode ser a resposta para tornar a soja mais resistente à seca – e, com essa pesquisa, ela foi uma das laureadas da edição 2020 do prêmio L’Oréal-Unesco-ABC Para Mulheres na Ciência! 

 

Quer saber mais sobre? Entenda como o estudo da pesquisadora tem potencial para trazer grandes ganhos econômicos e ambientais para o país!

 

Óxido nítrico é aposta da pesquisadora para tornar os grãos de soja resistentes à estiagem 

 

De acordo com a pesquisadora, a produção dos grãos de soja tem sofrido recentemente com as mudanças climáticas – e isso se reverbera na economia brasileira. “Na safra entre 2018 e 2019, 2 milhões de toneladas de soja foram perdidos só no estado de Goiás, um cenário que pode se tornar ainda mais crítico no futuro. Previsões apontam para uma redução de até 30% das chuvas no Brasil até o fim do século”, destaca Fernanda, que cursou mestrado e doutorado em Fisiologia Vegetal na Universidade Federal de Viçosa (MG), além de realizar pós-doutorado em hidráulica de plantas no Instituto Nacional de Pesquisa Agronômica, na França. 

 

 

Para resolver esse problema, em pesquisas anteriores, a bióloga já havia testado a relação entre um gás chamado óxido nítrico e os índices de resistência de plantas aquáticas a diferentes intempéries. Ao perceber os impactos causado nas plantações por esses veranicos –  como são chamados os períodos de estiagem acompanhados por calor intenso e baixa umidade relativa em plena estação chuvosa ou inverno -, ela teve a ideia de borrifar um líquido com substâncias produtoras do gás sobre as folhas da soja. “O óxido nítrico altera o metabolismo da planta, intensificando mecanismos de defesa e, dessa forma, aumentando a tolerância à seca. Constatamos um crescimento de 60% na produtividade da soja”, conta.

 

Tornar a tecnologia acessível e sem riscos ao meio ambiente é o próximo passo da cientista

 

O próximo passo de Fernanda é fazer com que esse procedimento seja acessível para agricultores e não traga riscos ao meio ambiente, já que a aplicação de liberadores de óxido nítrico diretamente sobre as folhas despeja compostos tóxicos no ar. “Devido à interação com a luz solar e o oxigênio, o composto também degrada rápido, tornando necessário fazer novas aplicações constantemente. É preciso encontrar uma forma de liberar o óxido nítrico de forma controlada e progressiva, para não gerar danos e diminuir as aplicações”, detalha. 

 

Em sua pesquisa, a bióloga prevê a aplicação do óxido nítrico utilizando nanopartículas que são capazes de fornecer a molécula aos poucos, de forma controlada e progressiva, sem causar danos ambientais. A tecnologia é desenvolvida por meio de uma colaboração com a química Amedea Seabra, da Universidade Federal do ABC (SP). “Acho essencial que mulheres trabalhem juntas. Quero formar cada vez mais redes de colaboração com pesquisadoras dentro e fora do Brasil”, afirma. 

 

Outro desejo de Fernanda é ver a técnica que propõe se tornar uma ferramenta cotidiana para os agricultores. “A ciência não pode ficar só presa aos muros da universidade. Sonho com o dia em que esse procedimento seja comum, como hoje ocorre com o adubo aplicado nas plantas”, torce, lembrando que a metodologia poderá ser testada em outras plantas no futuro. Do ponto de vista ambiental, os benefícios seriam diversos: atualmente, 70% da água doce do mundo é utilizada na agricultura. “Além da economia de água, aumentar a produtividade nas lavouras permitiria a diminuição das áreas plantadas, o que é fundamental para a redução do desmatamento”, explica.

 

Ser bióloga e transformar o mundo era o sonho de Fernanda na adolescência

 

 

Para Fernanda, a vontade de transformar o mundo por meio da biologia surgiu ainda no ensino médio, na pequena cidade de Lagoa da Prata, a cerca de 200 quilômetros de Belo Horizonte. “Eu estudei a vida inteira na escola pública e sempre fui muito incentivada pelos meus pais. Também tive uma professora, chamada Konoe Furuya, que me levou para expedições e me explicou todos os caminhos profissionais possíveis na biologia. Ali eu decidi que iria trabalhar com pesquisa”, lembra a cientista, que costuma ler livros de suspense e terror quando está longe do laboratório. “As pessoas acham engraçado porque sou pequena e tenho cara de boazinha”, ri.

 

A bióloga de 34 anos também está acostumada a contrariar estereótipos de gênero no campo profissional. “Enquanto eu estava fazendo o doutorado, convivi com muitas mulheres. A partir do momento em que virei professora, o número diminuiu muito na minha área. Já ouvi que mulheres não gostam de cargos de liderança, já me perguntaram se eu daria conta de uma sala de aula. Sinto que preciso provar algo o tempo inteiro, o que não acontece com os homens”, relata. 

 

Com o prêmio, ela comemora a possibilidade de desenvolver ainda mais as investigações realizadas em seu laboratório. “Na época da escola, nunca imaginei que pudesse ganhar um prêmio como esse. É emocionante saber que posso inspirar outras meninas e mulheres a buscarem o mesmo”, festeja. Ela se despede com recado àquelas que querem ser suas colegas de profissão. “Lugar de mulher também é fazendo pesquisa e atuando no laboratório. Nunca deixe ninguém te subestimar. Nem você mesma”, ensina.