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Cientista brasileira PhD em Química por Harvard supera preconceito e acumula 80 prêmios na carreira

07.05.2018

A cientista e seus alunos desenvolveram uma pele artificial humana com base nos resíduos derivados da indústria de curtume

“A educação e a ciência têm o poder de transformar vidas”. Para Joana D’Arc Félix de Souza, mulher e cientista, essa frase é mais um lembrete da sua trajetória de vida. Aos 53 anos, a pesquisadora lembra que precisou que enfrentar obstáculos, como falta de estrutura financeira e preconceito, para chegar onde chegou: hoje, ela é PhD em Química pela Universidade de Harvard e acumula 80 prêmios na carreira científica. Criada em Franca, no interior paulista, foi lá que ela encontrou seu principal objeto de pesquisa, os resíduos gerados no setor coureiro-calçadista.

Desde cedo, a Dra. Joana D’Arc já mostrava aptidão para área acadêmica. Como acompanhava frequentemente a mãe, que trabalhava como doméstica, aprendeu a ler aos 4 anos de idade e surpreendeu a dona da casa – o que garantiu a vaga na escola de Ensino Fundamental administrado por ela. Joana se formou no Ensino Médio aos 14 anos e, com apostilas emprestadas por uma professora e o apoio da família, passou no vestibular de três faculdades federais de São Paulo. Inspirada pelo trabalho do pai no curtume – e pelo fascínio com o químico do local – Joana escolheu cursar Química na Universidade Estadual de Campinas.

O estudo com a matéria-prima derivada da indústria de curtume permitiram que a Dra. Joana e seus alunos da Escola Técnica Estadual de Franca desenvolvessem uma pele artificial humana que pudesse ser utilizada em transplantes e recuperação de pele e em pacientes com queimaduras, e desenvolvimento de novos tratamentos para doenças dermatológicas. Com uma forte confiança na educação como transformadora de realidades, a cientista acredita que o ensino básico é a chave para incentivar a ascensão de jovens, sobretudo mulheres, na Ciência.

Confira a entrevista exclusiva com a Dra. Joana D’Arc sobre mulheres cientistas, educação básica e investimentos em ciência.

PMNC: Você ganhou diversos prêmios e fez parte de uma exposição temporária no Museu do Amanhã. Como esse reconhecimento impactou sua carreira e o desenvolvimento de suas pesquisas?

Joana D’Arc: A partir da Exposição Inovanças, fiquei conhecida no Brasil inteiro e em vários outros países. Esse reconhecimento impactou de tal forma a minha carreira que já participei de vários programas de televisão, ministrei mais de 50 palestras desde maio de 2017, e fui eleita Personalidade 2017 no Prêmio Faz Diferença do Jornal O Globo. Com a exposição, algumas empresas também se interessaram por financiar nossas pesquisas e fornecer bolsas de iniciação científica para os meus alunos.

O que te motivou a seguir em frente com a carreira científica mesmo com as dificuldades?

Sigo em frente com a carreira científica porque tenho muita esperança no Brasil e muita confiança nos nossos jovens. O país se desenvolve com talentos e, precisamos enxergar neles uma chance de melhorar o mundo. A educação é a arma mais poderosa para vencermos os obstáculos da vida. A origem social não é um destino, e o aluno precisa compreender que pode ser bem-sucedido por meio do aprendizado.

O Brasil tem que investir na educação pública de qualidade. Educação de qualidade requer um mínimo de infraestrutura e elementos pedagógicos que apenas são possíveis mediante recursos financeiros. Tenho muita esperança no Brasil e, acredito na valorização da escola pública. A educação e a ciência tem o poder de transformar vidas.

Você participa de projetos de iniciação científica para a educação básica. Qual é a importância de estimular um interesse pela ciência desde cedo em crianças e, principalmente, meninas?

O investimento em educação científica desde a infância e, principalmente para meninas, é a peça chave para a construção de uma sociedade democrática, economicamente produtiva, mais humana e sustentável. Os trabalhos de iniciação científica na educação básica desenvolvem pensamento lógico no jovem, que vai ser utilizado durante toda a sua formação. A educação é o caminho para a construção de um mundo melhor, pois é na educação básica que a criança/jovem adquire algumas características fundamentais para sua vida profissional. Para isso, o interesse do jovem pelos estudos tem que ser aguçado logo no início, o que infelizmente não acontece no tratamento dado às minorias.

Quais os desafios de incentivar a ciência ainda na educação básica?

O desafio de orientar jovens da educação básica é inestimável, porque esse primeiro contato do aluno com a pesquisa terá repercussões futuras. Se o jovem for bem orientado, provavelmente continuará a fazer outras pesquisas e depois será orientador de uma outra geração de alunos. É uma forma de desenvolver neles algumas características fundamentais para sua vida profissional, seja voltada para a indústria ou para a academia. Teremos cidadãos mais críticos e mais conscientes. Além disso, os jovens que desenvolvem iniciação científica na educação básica são termômetros muito importantes da qualidade do curso e do desempenho dos professores, ou seja, são excelentes cooperadores do próprio modelo pedagógico.

Como você vê a presença da mulher nas carreiras científicas?

Competitividade, participação em congressos e produção de artigos e pesquisas quando se tem filhos são alguns motivos que com que muitas mulheres retardam a carreira ou mesmo abortem o desejo de serem cientistas. A carreira de pesquisador, na medida em que se progride, não exige apenas o trabalho de pesquisa (e o de ensino, que quase sempre vem junto) em si, mas um esforço de negociação com os pares e demais agentes sociais em busca de apoio em diversas formas. Ascender em uma carreira que exige constante estudo, produção e aulas transforma-se em missão quase impossível quando também é preciso administrar tarefas domésticas e, sobretudo, a maternidade. Existe também algum preconceito quando a cientista está grávida ou quer engravidar. A ciência torna-se incompatível em certos momentos da nossa vida. Mas hoje em dia já não é incomum ver nomes de mulheres vinculados a importantes descobertas científicas.

O programa L’Oréal-UNESCO-ABC Para Mulheres na Ciência está com as inscrições abertas para mais uma edição. Quais conselhos você daria para motivar as mulheres que atuam ou estão começando na área científica?

Sempre traçar metas para atingir os seus objetivos. Manter o foco. Continuar trabalhando para alcançar seus objetivos. Ignorar aqueles que não acreditam em você e na sua capacidade de alcançar o seu sonho. Independente dos obstáculos que esteja enfrentando, continue colocando um pé na frente do outro e seguindo em frente. Você consegue fazer isso. Você pode!

Sou um exemplo de tudo isso. Passei por inúmeras dificuldades, preconceitos e humilhações, mas nunca deixei de sonhar e acreditar em Deus! Disse não ao vitimismo e utilizei os preconceitos, as humilhações e os xingamentos que sofri desde criança como ferramentas para vencer na vida. Quem desiste dos seus sonhos, reduz as suas chances de encontrar a felicidade e aumenta as probabilidades de se deparar com as decepções e frustrações.

Como você vê a situação da ciência no Brasil hoje? O que pode ser feito para melhorar esse cenário?

Infelizmente, a ciência brasileira está passando por um momento muito crítico. Depois de anos de austeridade, os pesquisadores brasileiros temem que a redução de 44% no orçamento federal, anunciado no ano passado, destrua a ciência do país. Esse corte para a ciência é particularmente grave, pois impede que sejam desenvolvidas pesquisas para produção de alimentos, fármacos e outros. Uma das alternativas para melhorar esse cenário, seria buscar no setor privado, financiamentos para o desenvolvimento das pesquisas, uma prática muito comum nos Estados Unidos e na Europa.