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Cientista brasileira ganha prêmio de melhor tese de Biologia no Reino Unido

03.05.2018

Thaís Vasconcelos foi reconhecida pela Linnean Society por pesquisa que analisou as mudanças sofridas por flores tropicais para estudar a evolução e a relação entre os seres vivos

Nas últimas semanas, a bióloga Thaís Vasconcelos tem chamado a atenção do mundo: sua pesquisa, focada na evolução das plantas Myrtaceae, foi reconhecida pela Linnean Society com a medalha John C Marsden, prêmio concedido à melhor e mais importante tese de doutorado da área no Reino Unido. Thaís é pós-doutora em Sistemática e Biologia Evolutiva pela University College London e o Royal Botanic Gardens Kew, onde desenvolveu o projeto vencedor do prêmio. “O que fiz foi comparar o material genético de várias espécies dessa família para reconstruir a história de parentesco entre elas”, explica a botânica.

Formada em Ciências Biológicas pela Universidade de Brasília (UnB), onde também fez o mestrado em Botânica, Thaís acredita que o Brasil é um país com muito potencial e recursos para avançar na ciência. No entanto, para ela, é preciso investir em iniciativas científicas que estimulem nos jovens – e, principalmente, nas meninas – o interesse por esse tipo de carreira. “Qualidades como a curiosidade e a criatividade muitas vezes são menos valorizadas do que a capacidade de memorizar e repetir conteúdo, algo que pouco tem a ver com o que é fazer ciência de verdade. Fazer ciência tem a ver com inovação, não com repetição”, ressalta.

Leia a entrevista exclusiva que fizemos com a Dra. Thaís Vasconcelos:

PMNC: Como surgiu seu interesse pela biologia e, principalmente, pela botânica?

Thaís Vasconcelos: Gostava muito de documentários sobre o meio ambiente e eu sabia que queria seguir carreira na biologia desde muito cedo. Só comecei a me empenhar mesmo no curso quando me envolvi com a parte de pesquisa no Departamento de Botânica, fazendo levantamento florístico de uma pequena área de cerrado. Quando me foi dado a primeira oportunidade de fazer uma pesquisa, eu vi que era aquilo que eu queria fazer para o resto da vida.

Qual é sua principal linha de pesquisa?

Desde que estava na graduação, minha linha de pesquisa sempre misturou macroevolução, que é evolução em grandes escalas de tempo, e sistemática, que é compreender a relação entre os seres vivos. Durante a maior parte do tempo, eu explorei esses conceitos analisando mudanças nas formas das flores ao longo do tempo em plantas tropicais, principalmente na família de plantas chamada Myrtaceae, que inclui as pitangas e jabuticabas, por exemplo. É preocupante que a gente não saiba muito sobre essas plantas, já que elas são super abundantes e diversas nos biomas brasileiros.

No projeto vencedor do prêmio, consegui mostrar que elas chegaram a América do Sul pela Antártida e a partir da Nova Zelândia, quando estes continentes ainda eram mais próximos e o clima era mais quente, há 40 milhões de anos. Outro tópico que abordei foi sobre como as flores dessa família mudam ao longo do tempo. Descobrimos que essas flores são tão bem adaptadas que as abelhas nativas que as polinizam pouco mudaram ao longo desse tempo.

Como foi a experiência de estudar na Inglaterra? Que dificuldades você encontrou?

Como um todo, foi excelente. Eu tenho muito carinho pela Inglaterra e principalmente por Londres e pelo Kew, onde trabalhei e morei durante os quatro anos que estive lá. O Jardim Botânico do Kew é um ambiente muito cosmopolita e a maioria das pessoas é bem aberta e respeitosa com estrangeiros lá. Apesar de a gente ter uma ideia de que os ingleses são super educados e muito avançados em várias questões sociais, o machismo na academia também é muito forte por lá. Há um grande viés para que posições de chefias sejam ocupadas por homens, ainda se convida mais homens para falar em seminários e palestras e a colaborar em artigos.

Para você, como um cientista deve lidar com as adversidades que surgem em seus estudos?

Acho que, para começar, é preciso desmistificar a carreira científica. A ciência é feita por pessoas, que ralam muito e que têm suas particularidades, qualidades e defeitos. Nenhuma pesquisa acontece sem problemas – sempre aparecem vários imprevistos durante o desenvolvimento de um projeto e várias coisas não dão certo na primeira tentativa. Acho que as pessoas precisam se abrir mais e fazer mais colaborações para unir forças e resolver problemas.

Como você vê a situação da ciência no Brasil hoje e, especialmente, em relação às mulheres? O que pode ser feito para melhorar esse cenário?

Eu acho que a ciência ainda não é uma área levada a sério no Brasil e ainda há uma escassez muito grande de oportunidades para seguir na carreira científica aqui. Isso é péssimo, porque o Brasil tem muito potencial, muitas riquezas naturais e podíamos aproveitar esses recursos para aumentar a qualidade de vida das pessoas aqui e fazer um mundo mais sustentável. Já dentro da academia, é preciso que as oportunidades de crescimento sejam iguais independente de gênero. As mulheres ainda são levadas menos a sério do que os homens e também sofrem mais com a “síndrome de impostor”, fazendo com que elas mesmas, muitas vezes, desmereçam o próprio trabalho. É preciso dar mais oportunidade para que mulheres e outras minorias não só entrem na ciência mas também sigam carreira e cresçam nessa área

O que representa ganhar a medalha John C Marsden nesse contexto?

Acho muito importante ter essa representatividade feminina e de outras minorias em prêmios grandes, mostra que as barreiras estão sendo quebradas aos poucos. Estimulou o debate sobre isso.

O programa L’Oréal-UNESCO-ABC Para Mulheres na Ciência premia cientistas brasileiras por suas pesquisas em áreas em que as mulheres ainda são pouco representadas. Por que uma iniciativa como essa é importante?

Acredito mesmo que a ciência tem muito a ganhar com uma maior inclusão das minorias. É ótimo que existam programas que ajudem a equilibrar um pouco as coisas e a dar mais oportunidades para mulheres. Uma proporção maior de mulheres e outras minorias em posições de liderança fará a carreira científica ficar mais humanizada, vai facilitar colaborações, trocas de ideias, o desenvolvimento de projetos mais legais e complexos e solução de problemas mais complicados.