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“A física precisa de mulheres porque ciência precisa de diversidade”

03.03.2015

“A física precisa de mulheres porque ciência precisa de diversidade”

Em entrevista ao Correio Braziliense, Márcia Barbosa, Laureada Internacional do For Women in Science em 2013, defende a valorização das mulheres no meio científico

Em fevereiro deste ano, o portal do jornal Correio Braziliense publicou uma reportagem com um questionamento: “Onde estão as cientistas?”. A matéria trouxe à tona uma realidade ainda comum para as mulheres cientistas, que é sua sub-representação em áreas científicas. Tal cenário foi baseado em um estudo de pesquisadores da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, publicado na revista científica Science, e também em dados do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que revelam que hoje, no Brasil, há 63.349 doutores bolsistas de mestrado do sexo masculino — 7.075 a mais que do sexo feminino.

Para incrementar a discussão, a reportagem ouviu a dra. Márcia Barbosa, Laureada Internacional do For Women in Science em 2013, que é uma grande incentivadora da maior participação feminina na ciência. Professora de física na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), pesquisadora do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências, Márcia acredita que antes de se pensar nas diferenças entre homens e mulheres que explique a desproporção nas ciências exatas, é preciso analisar se há equidade.

Márcia fez um levantamento para avaliar as alterações de nível em bolsas de Produtividade em Pesquisa, oferecidas pelo CNPq. Isto porque, na pesquisa em geral e, em particular, em exatas, a produção científica é quantificada com base em algumas variáveis: número de artigos, de citações, parâmetro h (número de artigos com até h citações) e de estudantes formados. “Em um mundo com igualdade entre homens e mulheres, esses índices devem estar no mesmo nível. Em física, descobrimos em 2005 que esse não era o caso. As mulheres no nível 2 e no nível 1B (primeiros níveis) tinham, em média, mais artigos do que os homens”, revela.

Márcia descobriu ainda que, de 2005 a 2010, os homens produziram apenas um artigo a mais que as mulheres. “Pergunto, então, se isso é equidade. Não, isso é igualdade e não há coisa mais injusta que tratar profissionalmente com igualdade quem tem, no mundo privado, tratamento desigual. As mulheres ainda são as responsáveis por administrar o lar, os filhos e os velhos. Como poderíamos esperar uma produção igual em condições desiguais?”, argumenta. Ela também é autora do artigo “Mulheres na física do Brasil: por que tão poucas? E por que tão devagar?” e revela que o percentual de mulheres na física é pífio: menos de 15 porcento estão entre os bolsistas do CNPq. Dessas, apenas 5 porcento ocupam o topo.

No texto, a pesquisadora levanta ainda outra questão: por qual motivo seria desejável ter mais mulheres nos postos de maior importância? Afinal, por que a física precisa delas? “Não vou trazer questões como democracia ou justiça. A física precisa de mulheres porque ciência precisa de diversidade”, resume a cientista. “Hoje, a ciência se faz em grandes grupos, em grupos que precisam juntar o diferente para gerar o novo”, conclui. Na contramão deste cenário, onde as mulheres são sub-representadas no alto escalão das profissões científicas, o Grupo L’Oréal as tem como grande maioria no seu time de Pesquisa: elas são 70 porcento.

É por isso que o programa Para Mulheres na Ciência é tão genuíno e um verdadeiro incentivo para que a ciência ganhe força pelas mãos das mulheres.