“Pesquisa da cientista segue a linha de Planejamento Racional de Fármacos, que desenha moléculas potencialmente capazes de inibir a ação dos agentes causadores das doenças”

07.08.2017

A jovem Rafaela Salgado Ferreira sempre deu sinais de que teria um futuro brilhante. O primeiro contato que teve com um ambiente científico foi ainda na adolescência, quando passou na seleção do Colégio Técnico (ColTec) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) para cursar o Ensino Médio. A jovem é uma das sete vencedoras do programa Para Mulheres na Ciência 2017. Reconhecida pela pesquisa que busca novas terapias contra a doença de Chagas e o vírus da zika, a cientista acredita que a persistência é a chave para a conquista: “Se você tem um sonho, aproveite todas as oportunidades. Elas podem lhe aproximar de um objetivo que, no princípio, parecia muito distante”.

O envolvimento com projetos temáticos na escola tiveram papel fundamental para moldar o interesse de Rafaela pela carreira científica. Mas foi no Programa de Vocação Científica (Provoc), em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que se encantou pela prática científica ao vivenciar, do 1º ao 3º ano, as pesquisas do Laboratório de Helmintoses Intestinais.

Primeiro contato com Planejamento Racional de Fármacos

Quando foi prestar vestibular, não teve dúvidas de que seguiria na área da saúde e optou pela graduação em Farmácia da UFMG. Determinada, Rafaela conseguiu estudar um semestre na Universidade do Texas, nos Estados Unidos, e já traçou o próximo passo: sair da faculdade direto para o doutorado. E conseguiu. No Programa de Química e Química Biológica da Universidade da Califórnia, em São Francisco, a jovem iniciou a experiência com pesquisas de Planejamento Racional de Fármacos, que consiste no desenvolvimento de medicamentos por meio de informações da estrutura de moléculas e com o auxílio de programas de computação. De volta ao Brasil, fez um pós-doutorado na Universidade de São Paulo e foi admitida como docente da UFMG.

Tratamento mais potente contra a doença de Chagas

Em busca de novos medicamentos contra o vírus da zika e para a doença de Chagas, o grupo de pesquisa da cientista busca alvos terapêuticos que possam inibir o funcionamento de proteínas fundamentais na fisiologia do vírus e do protozoário Trypanosoma cruzi, que é o responsável pela doença de Chagas. Com a ajuda de técnicas computacionais, os pesquisadores propõem moléculas para produção sintética e sua validação em ensaios in vitro contra as proteínas analisadas.

Desde a década de 1970, a doença de Chagas – que atinge por ano cerca de três milhões de brasileiros – é tratada com um medicamento chamado benzonidazol. A atuação da droga, no entanto, é mais eficaz no início da enfermidade. Infelizmente, essa não é a realidade da maioria dos pacientes, que só descobrem a doença anos depois de serem infectados. Além disso, há o agravante dos efeitos colaterais graves provocados pelo medicamento, como a neuropatia periférica – condição que atinge os nervos responsáveis por encaminhar dados da medula espinhal e cérebro para o restante do corpo.

Desde a pesquisa de doutorado, Rafaela Ferreira se inclina na análise da cruzaína, enzima responsável por funções do protozoário, como a nutrição, a invasão das células do hospedeiro e na forma como ele age para despistar a detecção pelo sistema imunológico do paciente. Com isso, os pesquisadores buscam moléculas que possam inibir a cruzaína e prejudicar a ação do T. cruzi.

O grupo já avaliou 400 substâncias – disponibilizadas gratuitamente pela organização Medicines for Malaria Venture – por meio da computação, química medicinal e biologia estrutural. Desse mapeamento, dois compostos que podem inibir a cruzaína já foram identificados: AMB7 e AMB12. A expectativa dos cientistas é que uma delas tenha potencial para o desenvolvimento de um novo tratamento contra a doença de Chagas.

Um caminho para o tratamento contra zika

Ainda sem tratamento, os primeiros casos de zika começaram a ser detectados no Brasil em 2015. O agravante da doença está na sua relação com problemas graves de saúde, como a microcefalia. A partir do Planejamento Racional de Fármacos, o grupo de pesquisadores apostam no desenho de um inibidor para uma protease – enzima capaz de quebrar outras proteínas – do vírus zika que possa impedir a replicação do vírus. No próximo passo, Rafaela pretende testar a ação dos inibidores em neurônios infectados para aplicar nos estudos sobre a microcefalia.

“Desenhamos os fármacos, pensamos em diversas possibilidades de substâncias e usamos programas de química computacional para simular como essas moléculas se ligariam com as proteínas presentes nos agentes causadores de doenças. Então, selecionamos candidatos a partir dessa ligação”, explica a pesquisadora. Os cientistas utilizam componentes que, normalmente, não existem na natureza. “Depois, validamos essas novas moléculas em ensaios no laboratório. Eu meço a atividade da enzima que estamos estudando, adiciono o inibidor e o que eu espero é que ele vá reduzir o nível de atividade dessa enzima”, conclui.

Oportunidade de tratamento para doenças negligenciadas

O processo de desenvolvimento de fármacos pode levar de 10 a 15 anos, entre a descoberta de uma molécula e a chegada ao mercado farmacêutico. Além disso, se trata de um trabalho integrado a outras modalidades de estudo. O grupo da UFMG, por exemplo, está focado na etapa inicial de descoberta das substâncias, enquanto outros grupos entrariam na fase de testes clínicos.

Com um papel social bem definido, a pesquisa é uma oportunidade de mudar realidades. Para Rafaela Ferreira, esse é o primeiro passo para a criação de tratamentos para doenças negligenciadas, que atingem principalmente as populações mais pobres. “É fantástico que a gente consiga produzir medicamentos, entender o funcionamento do organismo ou como uma doença acontece e seja capaz, a partir disso, de pensar em como intervir para produzir a cura da doença”, destaca a pesquisadora, ao contar sua motivação pela Ciência.