“Cientista busca compreender como a privação de cuidados parentais pode influenciar a capacidade de aprendizagem e memória dos indivíduos”

10.08.2017

Ainda nas primeiras aulas de anatomia do curso de Fisioterapia, no Rio Grande do Sul, Pâmela Billig Mello-Carpes já sabia que queria se especializar para entender o funcionamento do corpo. Foi ali que iniciou uma relação de paixão pelo universo da pesquisa. O reconhecimento pelo programa Para Mulheres na Ciência veio em 2017, depois de algumas tentativas desde que concluiu o doutorado há sete anos. O prêmio, no entanto, representa a continuidade de um importante trabalho: “No dia em que recebi a ligação me falando do prêmio, eu tinha acabado de ter uma conversa com os meus alunos para explicar que o laboratório só tinha recursos para funcionar até outubro de 2017. Depois disso, precisaríamos interromper as atividades por falta de verbas”.

Na Universidade de Cruz Alta, a cientista logo se envolveu em grupos de iniciação científica e projetos sobre fisiologia do exercício e estudos do envelhecimento humano. Seguir a vida acadêmica era uma certeza para Pâmela e o interesse em temas relacionados à aprendizagem e memória já pautavam o futuro acadêmico da jovem. Não por acaso, procurou pelo neurocientista Ivan Izquierdo, um dos mais importantes especialistas em memória do país, para ser o seu orientador no mestrado e doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre.

Antes de terminar a última etapa, porém, a pesquisadora passou em um concurso para ser professora-substituta na Universidade Federal do Pampa (UniPampa). Até defender a tese, passou pelo difícil processo de se dividir entre a capital gaúcha e a pequena cidade de Uruguaiana, 700 quilômetros distantes uma da outra. Hoje, Pâmela é docente efetiva da instituição.

Cuidados na primeira infância e formação do cérebro

A gravidez no final da faculdade não impediu que Pâmela mantivesse os planos de fazer uma pós-graduação. Para não deixar furos no trabalho e conciliar os estudos com os cuidados do fillho Vítor, hoje com 13 anos, a cientista teve que fazer malabarismos. “Eu brinco que meu filho fez mestrado e doutorado comigo, porque muitas vezes tinha que levar ele junto para o laboratório”, conta. “Só consegui concluir porque encontrei um orientador para quem ter filhos não era um impedimento para a pós-graduação e porque tive bastante apoio do meu marido, que também é cientista, e dos meus pais”.

A maternidade, no entanto, não está presente apenas em casa. Atualmente, ela se dedica a compreender como o cuidado parental, ou a falta dele, na primeira infância pode afetar o cérebro e, portanto, a capacidade de aprendizagem e formação de memórias. “É um conhecimento fundamental para entender o impacto das relações familiares que vemos hoje na sociedade”, ressalta.

Observou-se que quando o indivíduo é submetido ao que se chama de deprivação maternal – negligência de cuidados nas primeiras fases de vida – ele pode apresentar alguns distúrbios cerebrais na fase adulta. A cientista junto com seu grupo de pesquisa constatou os seguintes sintomas: redução da neuroplasticidade (capacidade que o sistema nervoso saudável tem de adaptar sua estrutura funcional de acordo com as experiências que o sujeito passa), maior estresse oxidativo (desequilíbrio entre a produção de compostos oxidantes e a atuação de substâncias antioxidantes) e déficit cognitivo (dificuldade de aprendizagem e memória).

A cientista busca entender por que os impactos se apresentam a longo prazo e investiga ações que possam prevenir os danos cerebrais nos indivíduos que passam pela privação de cuidados parentais. Além disso, procura terapias que possam tratar as pessoas que apresentam essa condição na vida adulta. Uma das hipóteses levantadas pelo grupo de pesquisa é que a ingestão de alimentos com propriedades antioxidantes também pode atuar como estratégia de neuroproteção. Em um dos experimentos, foi observado que o consumo de chá verde é capaz de proteger o cérebro contra o estresse oxidativo causado por isquemia cerebral, hemorragia cerebral e doença de Alzheimer. Os cientistas tentam, agora, associar esse tratamento à deprivação maternal.

Outra possibilidade para estimular a neuroproteção é por meio do enriquecimento ambiental que, segundo Pâmela, consiste na criação de um ambiente que estimule a criança em atividades de desenvolvimento cognitivo em caso de ausência dos pais. A pesquisa em laboratório ajuda a identificar como essa falta de cuidado nos primeiros anos de vida influencia a formação do cérebro humano. Outros estudos, no entanto, precisam ser evidenciados até chegar a uma conclusão. “O que fazemos aqui é ciência básica. Procuramos pistas do que pode funcionar também em humanos, mas, antes de saber se realmente funciona, precisamos de outros testes”, explica a cientista.

Reconhecimento do valor feminino para a Ciência

Para a pesquisadora, a láurea do programa tem um significado que vai além do incentivo financeiro: a promoção da participação de mulheres na Ciência. “Alguém leu meu trabalho e acreditou nele! É o reconhecimento à participação feminina na ciência – uma ciência que, desde sempre, tem muito mais rostos masculinos, não porque as mulheres não fazem ciência, mas sim porque não são acreditadas, apoiadas, reconhecidas. O prêmio reconhece essas mulheres”, celebra.

Hoje, Pâmela se sente como uma representante de tantas mulheres espalhadas pelo Brasil que se dedicam ao conhecimento científico e buscam espaço para se consolidarem na carreira. “Assumo esse compromisso com imensa felicidade, pois acredito nele!”. Nesse longo caminho, as cientistas enfrentam desafios dentro e fora do ambiente acadêmico e precisam lidar com o preconceito cotidiano para mostrarem que o lugar delas pode ser, sim, no laboratório ou onde quiserem.